A Disfunção Neuroquímica Central no TDAH

A Disfunção Neuroquímica Central no TDAH
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é fundamentalmente um transtorno do neurodesenvolvimento, e sua base biológica reside em alterações na maneira como certas regiões do cérebro, especialmente o córtex pré-frontal, se comunicam. Essa comunicação depende, em grande parte, de mensageiros químicos chamados neurotransmissores.
Os Neurotransmissores Estrelas: Dopamina e Norepinefrina
Os verdadeiros protagonistas por trás dos sintomas do TDAH são as catecolaminas, em particular a dopamina e a norepinefrina (ou noradrenalina).
1. Dopamina (DA): O Mensageiro da Recompensa e da Motivação
No cérebro com TDAH, o que se observa não é necessariamente a falta de produção de dopamina, mas sim uma baixa disponibilidade funcional nas sinapses (as conexões entre os neurônios) no córtex pré-frontal. Esta região é o centro de comando das funções executivas: planejar, organizar, iniciar tarefas, regular emoções e manter o foco.
A dopamina é crucial para o chamado "circuito de recompensa" e a motivação. Quando seus níveis estão baixos ou sua recaptação é muito rápida (como se o cérebro estivesse "limpando" o mensageiro antes que ele pudesse transmitir totalmente a mensagem), o indivíduo precisa de um estímulo muito maior ou mais imediato para se sentir motivado e manter o interesse. Isso explica por que tarefas tediosas são quase impossíveis, enquanto as atividades prazerosas (que liberam muita dopamina) podem levar ao famoso hiperfoco. A disfunção dopaminérgica contribui diretamente para a desatenção, a busca por estímulos e a dificuldade em adiar a gratificação.
2. Norepinefrina (NE): O Regulador do Alerta e da Atenção
Intimamente ligada à dopamina, a norepinefrina desempenha um papel essencial na modulação do estado de alerta, da vigilância e da regulação da atenção. A norepinefrina ajuda o cérebro a filtrar informações irrelevantes (permitindo que você se concentre no que é importante) e a manter um nível ideal de excitação para o foco.
A baixa funcionalidade da norepinefrina no TDAH contribui para a distratibilidade e a dificuldade em manter o alerta, especialmente em ambientes monótonos. Muitos dos medicamentos estimulantes e não-estimulantes usados no tratamento do TDAH visam aumentar a disponibilidade tanto da dopamina quanto da norepinefrina nas fendas sinápticas, o que, de forma simplificada, "acorda" o córtex pré-frontal e melhora o controle executivo.
A Influência dos Hormônios: Do Estresse ao Ciclo Reprodutivo
Embora o tratamento e a neurobiologia primária se concentrem nos neurotransmissores, alguns hormônios também demonstram interação ou alterações que afetam diretamente a manifestação do TDAH:
1. Cortisol: O Hormônio do Estresse e o Ritmo Circadiano
Pesquisas sobre a relação entre TDAH e o eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal, que regula o estresse) apontam para possíveis alterações no cortisol. O cortisol é um hormônio esteroide que normalmente tem um pico pela manhã para nos ajudar a acordar e manter o alerta.
Em algumas subpopulações com TDAH, foram observados padrões anormais de cortisol, como níveis mais baixos do que o esperado pela manhã. Esse cortisol matinal subótimo pode dificultar o início das tarefas, a atenção imediata e a organização—sintomas típicos de quem precisa de um "turbo" para começar o dia. Além disso, a regulação alterada do cortisol também está ligada à forma como lidamos com o estresse, o que é um desafio constante para quem tem TDAH.
2. Hormônios Sexuais (Estrogênio e Progesterona): O Impacto nas Mulheres
O estrogênio e, em menor grau, a progesterona, são hormônios que interagem significativamente com o sistema dopaminérgico. O estrogênio atua como um modulador da dopamina, e sua queda está associada a uma diminuição na sua eficácia.
Em mulheres com TDAH, as flutuações hormonais têm um impacto notável. A queda do estrogênio que ocorre na fase lútea (antes da menstruação), no pós-parto e na menopausa está fortemente correlacionada com a exacerbação dos sintomas do TDAH. Nesses períodos, a sensação de desorganização, a desatenção, a fadiga mental e a labilidade emocional se intensificam, muitas vezes de forma dramática, o que sublinha a importância da modulação hormonal na manifestação clínica do transtorno.
A neurobiologia do TDAH é um intrincado balé químico onde a baixa eficiência da dopamina e da norepinefrina domina o palco, prejudicando o controle executivo e a motivação. Enquanto os hormônios como o cortisol e o estrogênio não são a causa primária, suas alterações servem como moduladores que podem piorar ou atenuar a intensidade dos sintomas centrais, tornando a experiência do TDAH altamente variável e sensível a fatores biológicos e ambientais.
Embora o TDAH seja classicamente associado a disfunções dopaminérgicas e noradrenérgicas, a serotonina emerge como um componente importante, especialmente quando o transtorno se manifesta com maior impulsividade e comorbidades emocionais.
O Papel da Serotonina no TDAH: O Freio Emocional e Comportamental
A serotonina é um neurotransmissor de ação mais ampla, envolvido em funções como o sono, o apetite e, crucialmente, a estabilidade emocional e a inibição comportamental.
1. Regulação da Impulsividade:
A impulsividade é um dos pilares do TDAH (juntamente com a desatenção e a hiperatividade). Enquanto a dopamina está ligada à busca de recompensa rápida (o que alimenta a impulsividade), a serotonina age como um freio. Níveis ou atividade serotoninérgica baixos ou desregulados podem diminuir a capacidade do indivíduo de parar para pensar antes de agir.
Isso se manifesta não apenas nas decisões precipitadas e na dificuldade em esperar a vez, mas também na hiperatividade (a inquietação constante) e na impulsividade verbal (falar sem filtro ou interromper). A Serotonina ajuda a modular a inibição, e uma disfunção nesse sistema pode exacerbar os comportamentos impulsivos e de risco.
2. O Elo com Comorbidades:
A importância da serotonina no TDAH se torna ainda mais evidente ao considerarmos as altas taxas de comorbidades (outras condições que ocorrem junto com o TDAH). O sistema serotoninérgico está profundamente implicado em:
• Transtornos de Humor: Depressão e Transtorno Bipolar.
• Transtornos de Ansiedade: Ansiedade generalizada e ataques de pânico.
• Agressividade e Irritabilidade: A baixa modulação serotoninérgica está associada a picos de irritação e dificuldade em controlar a raiva, problemas frequentemente relatados por adultos com TDAH.
Para quem tem TDAH e experimenta essas comorbidades, o sistema serotoninérgico provavelmente está contribuindo para o quadro, o que muitas vezes exige um tratamento que vá além dos estimulantes (que focam na dopamina/norepinefrina) e inclua medicamentos ou terapias que abordem o equilíbrio da serotonina.
Se a Dopamina é o acelerador do TDAH que busca estímulo, a Serotonina é o pedal de freio que, quando frouxo, permite que a impulsividade e as emoções fiquem desreguladas.
Ricardo Santana, Neuropsicólogo, CRP15 0180, (82)99988-3001, Maceió/AL
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