Avaliação psicológica de pais de criança com AH/SD - Altas Habilidades / Superdotação
A avaliação neuropsicológica realizada em crianças com AH/SD - Altas Habilidades / Superdotação tem como um de seus principais objetivos investigar suas características intelectuais, cognitivas, emocionais e comportamentais, especialmente no contexto da investigação de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD).
Entretanto, compreender uma criança vai muito além de identificar suas capacidades intelectuais, suas potencialidades ou suas dificuldades. É igualmente importante compreender como ela percebe o mundo, como expressa suas emoções, como reage às frustrações e como estabelece seus relacionamentos, especialmente no ambiente familiar.
Nesse sentido, considero bastante enriquecedora a realização de uma avaliação psicológica individual dos pais, utilizando instrumentos específicos para investigar características de personalidade e determinados aspectos do funcionamento intelectual.
O propósito dessa avaliação não é identificar problemas psicológicos, julgar comportamentos ou avaliar a capacidade dos pais para exercer a maternidade e a paternidade. Pelo contrário, trata-se de uma oportunidade de autoconhecimento, destinada a compreender melhor as características individuais de cada um e como elas podem influenciar, positiva ou negativamente, determinadas situações do relacionamento com a criança que apresenta SD/AH - Superdotação / Altas Habilidades.
Cada pessoa possui maneiras particulares de pensar, sentir, interpretar acontecimentos, tomar decisões, expressar emoções e reagir às situações cotidianas. Essas diferenças fazem parte da individualidade humana e não representam, necessariamente, qualidades ou defeitos.
Por exemplo, uma pessoa que valoriza muito a organização e a previsibilidade poderá encontrar dificuldades diante de uma criança que frequentemente questiona regras ou propõe mudanças. Da mesma forma, uma pessoa mais objetiva e prática poderá sentir dificuldades em determinadas situações nas quais a criança necessita de maior acolhimento emocional, explicações detalhadas ou tempo para elaborar suas próprias respostas.
Isso não significa que uma maneira de agir seja melhor do que outra. Significa apenas que conhecer nossas próprias características pode nos ajudar a compreender por que reagimos de determinadas maneiras e como podemos utilizar esse conhecimento para melhorar nossos relacionamentos.
Para essa finalidade, proponho considerar a utilização de três instrumentos psicológicos, toda aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia - CFP, cada um contribuindo, dentro de suas características e limites técnicos, para diferentes aspectos do autoconhecimento.
A BFP — Bateria Fatorial de Personalidade permite investigar características relacionadas à estabilidade emocional, à maneira de estabelecer relacionamentos, à organização pessoal, à interação social e à abertura para novas experiências. Seus resultados podem ajudar a compreender como cada um dos pais tende a reagir diante de situações de conflito, frustração, mudanças e exigências do cotidiano familiar.
O IPHEXA poderá complementar essa investigação, conforme os aspectos psicológicos especificamente contemplados pelo instrumento e sua adequação técnica, contribuindo para ampliar a compreensão das particularidades individuais relevantes à convivência familiar.
O WMT-2, por sua vez, poderá contribuir para a investigação de aspectos específicos do funcionamento intelectual, permitindo conhecer determinadas características relacionadas ao desempenho cognitivo, sempre respeitando as capacidades efetivamente avaliadas pelo instrumento.
É importante destacar que a finalidade não será comparar a inteligência dos pais com a da criança com Altas Habilidades / Superdotação- AH/SD, tampouco estabelecer quem possui maiores ou menores capacidades. O objetivo será compreender diferenças individuais que possam influenciar a comunicação, as expectativas e a maneira de enfrentar determinadas situações.
A partir dos resultados, associados às entrevistas individuais, poderemos identificar características pessoais que favoreçam o relacionamento com a criança que apresenta AH/SD e outras que, em determinadas circunstâncias, possam exigir maior atenção ou ajustes nas estratégias educativas.
Esse conhecimento poderá contribuir, por exemplo, para melhorar a comunicação familiar, compreender reações emocionais, lidar com questionamentos, estabelecer limites, favorecer a autonomia, administrar frustrações e reconhecer necessidades que nem sempre são expressas claramente pela criança.
No caso de crianças com características associadas às Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), é especialmente importante compreender que um desenvolvimento intelectual avançado não significa, necessariamente, uma maturidade emocional igualmente avançada.
Uma criança pode apresentar raciocínio elaborado, curiosidade intensa e facilidade para determinadas aprendizagens e, ao mesmo tempo, experimentar dificuldades para lidar com frustrações, inseguranças, contrariedades ou situações emocionalmente exigentes.
Por isso, não devemos esperar que uma criança responda emocionalmente como um adulto apenas porque demonstra capacidades intelectuais desenvolvidas.
Também é importante reconhecer que os pais possuem suas próprias histórias, experiências, expectativas, sensibilidades e necessidades emocionais. Todas essas características participam da construção do relacionamento familiar.
O que se busca é justamente compreender melhor esse encontro entre individualidades: de um lado, as características particulares da criança com AH/SD; de outro, as características individuais de cada um de seus pais.
Com essas informações, poderemos elaborar orientações práticas e personalizadas, respeitando tanto as necessidades da criança com AH/SD quanto as características e os recursos pessoais dos pais.
A participação nessa avaliação será voluntária, e os resultados individuais serão tratados com o devido sigilo profissional. Eventuais orientações conjuntas serão construídas respeitando a privacidade e a concordância de cada participante.
Gostaria de enfatizar que não estamos falando que pretendemos modificar a personalidade de ninguém. Pretendemos, sim, compreender como cada pessoa pode utilizar melhor suas próprias características para construir relacionamentos mais conscientes, equilibrados e afetivamente saudáveis.
Afinal, educar uma criança não significa apenas ensinar, orientar, estabelecer limites e oferecer oportunidades. Significa também aprender a conhecê-la, respeitar sua individualidade e reconhecer que o relacionamento entre pais e filhos é um processo contínuo de desenvolvimento e aprendizagem para todos os envolvidos.
Nosso propósito é contribuir para que a criança com AH/SD possa desenvolver plenamente suas potencialidades intelectuais, emocionais e sociais, sem perder de vista algo fundamental: antes de qualquer característica cognitiva, classificação ou diagnóstico, existe uma criança com sua própria personalidade, seus sentimentos, suas necessidades e sua maneira singular de existir.
Não avaliamos apenas as capacidades ou dificuldades de uma criança. Procuramos compreender a pessoa que ela é, a pessoa que está se tornando e as relações que participam da construção de sua identidade.
Ricardo Santana, Neuropsicólogo, CRP 15/0180, WhatsApp: (82)99988-3001, Maceió/AL #AHSD
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