As Atenções


A atenção é um processo cognitivo fundamental para a adaptação ao ambiente, permitindo selecionar, manter ou alternar o foco diante da multiplicidade de estímulos que competem pelos recursos mentais. Diversos autores a descrevem como um sistema complexo, que pode ser classificado segundo critérios de duração, controle, flexibilidade ou modalidade sensorial (Posner & Petersen, 1990; Lezak et al., 2012).

Entre os tipos de atenção mais reconhecidos na literatura, destaca-se a atenção sustentada, definida como a capacidade de manter o foco por tempo prolongado, essencial em atividades que exigem monitoramento contínuo, como a leitura de textos longos ou a vigilância em tarefas repetitivas (Sohlberg & Mateer, 1987). Já a atenção seletiva refere-se à habilidade de filtrar estímulos irrelevantes e direcionar os recursos cognitivos para informações pertinentes, exemplificada pelo chamado efeito coquetel, em que se consegue ouvir uma conversa específica em meio ao ruído (Broadbent, 1958).

A atenção dividida corresponde à possibilidade de realizar duas ou mais tarefas simultaneamente, como dirigir enquanto conversa, embora existam limitações cognitivas que reduzem a eficiência em ambas as tarefas quando a carga é elevada (Kahneman, 1973). De forma complementar, a atenção alternada diz respeito à flexibilidade cognitiva para mudar rapidamente de um foco atencional para outro, como ocorre quando um indivíduo interrompe um cálculo para atender a uma chamada telefônica (Lezak et al., 2012). Já a atenção focalizada implica a concentração intensa em um único estímulo ou tarefa, sendo observada, por exemplo, na resolução de problemas matemáticos complexos.

Quanto ao controle, distingue-se a atenção voluntária (ou endógena), dirigida de maneira consciente e intencional, como no caso de um estudante que escolhe focar em seu livro, da atenção involuntária (ou exógena), que é captada automaticamente por estímulos externos intensos ou inesperados, como um barulho súbito (Posner & Petersen, 1990). Em níveis mais complexos, a atenção executiva refere-se ao controle atencional associado às funções do córtex pré-frontal, incluindo inibição, monitoramento e resolução de conflitos, sendo avaliada em tarefas como o Stroop Test (Miyake et al., 2000). Outro tipo relevante é a atenção vigilante, que corresponde ao estado de alerta contínuo para responder prontamente a estímulos pouco frequentes, como ocorre com pilotos ou profissionais de segurança (Warm, Parasuraman & Matthews, 2008).

No que se refere ao esforço cognitivo, diferencia-se a atenção automática, que se manifesta sem necessidade de controle consciente, como caminhar após a aprendizagem, da atenção controlada, que requer esforço deliberado e monitoramento ativo, presente em situações de aprendizagem de novas habilidades (Shiffrin & Schneider, 1977).

Além desses aspectos cognitivos, é importante considerar as dimensões corporais e sensoriais da atenção, frequentemente exploradas em contextos clínicos, psicomotores e terapêuticos. A atenção proprioceptiva refere-se ao foco consciente nas sensações corporais de posição, movimento e equilíbrio, sendo essencial em práticas como yoga, pilates ou reabilitação motora (Sherrington, 1906; Berthoz, 2000). Já a atenção interoceptiva concentra-se em estímulos internos do organismo, como batimentos cardíacos, respiração ou fome, sendo muito explorada em estudos sobre regulação emocional e práticas de mindfulness (Craig, 2002). Por sua vez, a atenção exteroceptiva é dirigida aos estímulos externos captados pelos órgãos sensoriais, como observar um quadro em uma galeria de arte ou escutar música (Luria, 1973).

Assim, a atenção pode ser compreendida não apenas como um processo cognitivo regulador da percepção e do comportamento, mas também como uma ponte entre mente e corpo, na medida em que permite ao indivíduo direcionar seu foco tanto para estímulos externos quanto internos. A integração entre as perspectivas cognitivas e sensoriais amplia a compreensão do papel da atenção no funcionamento humano, tanto em contextos clínicos quanto educacionais e terapêuticos.

Referências

  1. Berthoz, A. (2000). The brain’s sense of movement. Harvard University Press.
  2. Broadbent, D. E. (1958). Perception and communication. Pergamon Press.
  3. Craig, A. D. (2002). How do you feel? Interoception: the sense of the physiological condition of the body. Nature Reviews Neuroscience, 3(8), 655–666.
  4. Kahneman, D. (1973). Attention and effort. Prentice-Hall.
  5. Lezak, M. D., Howieson, D. B., Bigler, E. D., & Tranel, D. (2012). Neuropsychological Assessment (5th ed.). Oxford University Press.
  6. Luria, A. R. (1973). The working brain: An introduction to neuropsychology. Basic Books.
  7. Miyake, A., Friedman, N. P., Emerson, M. J., Witzki, A. H., Howerter, A., & Wager, T. D. (2000). The unity and diversity of executive functions and their contributions to complex “frontal lobe” tasks: A latent variable analysis. Cognitive Psychology, 41(1), 49–100.
  8. Posner, M. I., & Petersen, S. E. (1990). The attention system of the human brain. Annual Review of Neuroscience, 13, 25–42.
  9. Sherrington, C. (1906). The integrative action of the nervous system. Yale University Press.
  10. Shiffrin, R. M., & Schneider, W. (1977). Controlled and automatic human information processing: II. Perceptual learning, automatic attending and a general theory. Psychological Review, 84(2), 127–190.
  11. Sohlberg, M. M., & Mateer, C. A. (1987). Effectiveness of an attention-training program. Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology, 9(2), 117–130.
  12. Warm, J. S., Parasuraman, R., & Matthews, G. (2008). Vigilance requires hard mental work and is stressful. Human Factors, 50(3), 433–441.

Ricardo Santana, Neuropsicólogo, CRP15 0180, (82)99988-3001, Maceió/AL

#atenção

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