Sobre a ansiedade

Sobre a ansiedade 

O conceito de ansiedade à luz da TCC é que ela é uma resposta emocional, cognitiva e fisiológica, muitas vezes exagerada ou disfuncional, ativada por uma avaliação distorcida de uma ameaça ou perigo.

Em vez de ser vista apenas como um estado de nervosismo, a TCC a define pelo seu modelo triádico e cognitivo:

 * Componente Cognitivo: O núcleo da ansiedade, segundo a TCC, são os pensamentos automáticos negativos e as crenças disfuncionais (como o medo de não ser capaz, de que algo terrível acontecerá, ou de ser julgado). Estes pensamentos superestimam o perigo e subestimam a capacidade do indivíduo de lidar com ele.

 * Componente Fisiológico: As sensações físicas de alerta e perigo (como taquicardia, sudorese, falta de ar) são o resultado direto da interpretação cognitiva da ameaça.

 * Componente Comportamental: A manifestação da ansiedade é geralmente a evitação das situações temidas. Esse comportamento, embora traga alívio imediato, impede que o paciente aprenda que a ameaça não era tão grande, mantendo o ciclo da ansiedade.

Portanto, para a TCC, a ansiedade patológica é um ciclo de manutenção onde a forma de pensar sobre um evento leva a um sentimento intenso, que por sua vez leva à evitação, reforçando a crença inicial de perigo. O tratamento visa interromper esse ciclo através da reestruturação desses pensamentos e da mudança dos comportamentos de evitação.

Ou seja:

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) vê a ansiedade como um ciclo disfuncional mantido por pensamentos automáticos negativos e comportamentos de evitação.

Não é a situação em si que gera a ansiedade, mas a interpretação catastrófica (distorções cognitivas) que a pessoa faz sobre ela. Esses pensamentos ativam reações físicas intensas e levam o indivíduo a evitar o gatilho.

O tratamento foca em:

1. Reestruturação Cognitiva: Desafiar e modificar os pensamentos irrealistas.

2. Modificação Comportamental (Exposição): Confrontar gradualmente as situações temidas para provar que os pensamentos catastróficos são falsos, quebrando o ciclo de evitação e alívio.

A TCC capacita o paciente a ser seu próprio terapeuta, mudando a maneira como pensa e reage aos medos.

Aqui está um exemplo prático de Reestruturação Cognitiva

A reestruturação cognitiva é uma técnica da TCC usada para desafiar os pensamentos disfuncionais que sustentam a ansiedade.

A Situação e o Ciclo Disfuncional

Imagine um profissional que precisa apresentar um projeto importante para a equipe na manhã seguinte.

• Evento/Gatilho: Preparar-se para a apresentação.

• Pensamento Automático Disfuncional: O indivíduo pensa imediatamente: "Vou travar, esquecer tudo e fazer um papel ridículo. Eles vão perceber que não sou competente e a minha carreira estará arruinada."

• Emoção e Reação: Isso gera ansiedade intensa, pânico e sintomas físicos (taquicardia, insônia). O comportamento disfuncional é a evitação, como procrastinar ou tentar faltar ao trabalho.

O Desafio Cognitivo (Diálogo Socrático)

O terapeuta guia o paciente a questionar esse pensamento catastrófico usando perguntas baseadas em evidências:

1. Qual é a evidência? O paciente é incentivado a buscar fatos que comprovem ou refutem o pensamento. Resposta: "Na verdade, eu me preparei bem. Já fiz outras apresentações com sucesso. Um pequeno erro não comprova incompetência."

2. Existe uma explicação alternativa? O paciente considera outras perspectivas. Resposta: "Um colega veria isso como uma oportunidade normal de trabalho. É esperado sentir nervosismo, e ninguém espera a perfeição, apenas a informação."

3. Qual é o pior resultado e como eu lidaria com ele? O paciente confronta o medo máximo. Resposta: "Se eu travasse, eu respiraria fundo, consultaria minhas anotações e recomeçaria. Seria constrangedor, mas eu sobreviveria a isso, e minha carreira não estaria arruinada."

O Pensamento Mais Equilibrado

Após o desafio, o pensamento original é substituído por uma interpretação mais realista e adaptativa:

"Estou ansioso porque a apresentação é importante. Vou me concentrar no meu material e dar o meu melhor. Mesmo que eu cometa um erro, será apenas um erro, e não uma prova irrefutável da minha incompetência."

Essa nova forma de pensar reduz a ansiedade e permite que o paciente enfrente a situação de maneira funcional.

Ricardo Santana, Neuropsicólogo, CRP15 0180, (82)99988-3001 #ansiedade

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Vineland Adaptive Behavior Scales – Third Edition (Vineland-3): Estudos de Validade e Aplicações

Transtornos Mentais: Uma Visão Geral Baseada no DSM-5 e CID-11

Camisa de força

Depressão e Ansiedade à Luz da CID-11

O Córtex Pré-Frontal: Estrutura, Função e Implicações Clínicas

O que são crianças atípicas?

ATIVAÇÃO COMPORTAMENTAL: Lista de Orientações Práticas

Luria e a Neuropsicologia

A relação entre altas habilidades e o Quociente de Inteligência (QI)

A TCC de Aaron Beck e Judith Beck: Pensamentos, emoções, comportamentos e reações fisiológicas