Ansiedade: Como usar uma pedrinha para combater crises
Ter uma pedrinha na mão durante uma crise de ansiedade pode parecer algo simples, quase ingênuo, mas do ponto de vista neuropsicológico trata-se de um recurso potente de autorregulação emocional e cognitiva.
Durante uma crise de ansiedade, o cérebro entra em um estado de hiperativação do sistema límbico, especialmente da amígdala, estrutura responsável por detectar ameaças. Nessa condição, o organismo passa a operar em “modo de alarme”: há aumento da frequência cardíaca, da respiração, da tensão muscular e uma enxurrada de pensamentos catastróficos. Ao mesmo tempo, ocorre uma redução funcional do córtex pré-frontal, região responsável pelo controle executivo, pela avaliação racional da situação e pela inibição de respostas emocionais excessivas.
Ao segurar uma pedrinha e direcionar a atenção para seus pequenos detalhes — textura, peso, temperatura, irregularidades, bordas, porosidade — o indivíduo ativa deliberadamente sistemas cerebrais diferentes daqueles envolvidos na ansiedade. Esse processo envolve:
1. Redirecionamento da atenção (controle atencional)
Focar nos detalhes sensoriais da pedra recruta redes atencionais do córtex parietal e pré-frontal dorsolateral, desviando recursos cognitivos do ciclo ruminativo e das interpretações ameaçadoras. A atenção deixa de estar capturada pelos pensamentos automáticos ansiosos e passa a se ancorar no aqui e agora.
2. Estímulo sensorial e integração somatossensorial
O contato físico com a pedrinha ativa o córtex somatossensorial primário e secundário, além de áreas associativas responsáveis pela integração das sensações táteis. Esse input sensorial concreto ajuda o cérebro a “recalibrar” a percepção corporal, reduzindo a sensação difusa de perda de controle típica das crises.
3. Grounding e orientação para a realidade
Do ponto de vista clínico, esse recurso funciona como uma técnica de grounding (ancoragem). Ao observar algo real, tangível e externo, o cérebro recebe sinais claros de que não há uma ameaça imediata, favorecendo a diminuição da ativação da amígdala e do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), responsável pela resposta ao estresse.
4. Reativação do córtex pré-frontal
À medida que a intensidade emocional diminui, o córtex pré-frontal recupera sua capacidade de modular as respostas emocionais. Isso permite que a pessoa volte a pensar com mais clareza, reconheça que está passando por uma crise (e não por um perigo real) e utilize estratégias cognitivas mais adaptativas.
5. Sentido simbólico e previsibilidade
Além do aspecto neurobiológico, a pedrinha pode adquirir um valor simbólico de segurança. O cérebro aprende, por condicionamento, que aquele objeto está associado à superação de crises anteriores. Isso aumenta a sensação de previsibilidade e controle, fatores centrais para a redução da ansiedade.
Em síntese, a pedrinha não “elimina” a ansiedade por si só. Ela atua como um mediador neuropsicológico, ajudando o cérebro a sair do estado de alarme, reorganizar a atenção, integrar o corpo à experiência presente e restabelecer o equilíbrio entre emoção e razão. Pequena no tamanho, mas grande na capacidade de lembrar ao sistema nervoso que o momento pode ser atravessado — um detalhe de cada vez.
Ricardo Santana, Neuropsicólogo, CRP15 0180
#ansiedade
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