OMS sobre intervenções breves de 5 a 30 minutos
A discussão sobre a necessidade de produzir efeitos clínicos já no primeiro contato com o paciente encontra respaldo consistente nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde, ainda que não seja formulada de maneira literal ou simplificada como frequentemente circula em redes sociais. De fato, a OMS não afirma explicitamente que “a maioria dos pacientes comparece apenas à primeira consulta”; contudo, suas recomendações técnicas e operacionais são estruturadas a partir do reconhecimento de um problema amplamente documentado na literatura em saúde pública: a baixa adesão, a alta taxa de abandono precoce e o chamado “treatment gap” em saúde mental, isto é, a discrepância entre a necessidade de cuidado e o acesso efetivo a tratamentos contínuos e adequados.
A OMS e outros órgãos têm apontado:
- aumento de transtornos de ansiedade e depressão, especialmente após a pandemia;
- maior exposição a estressores crônicos (instabilidade econômica, hiperconectividade, sobrecarga informacional);
- crescimento de burnout em profissionais de saúde e outras áreas.
Esse posicionamento pode ser claramente identificado no desenvolvimento e na implementação do programa mhGAP (Mental Health Gap Action Programme), lançado pela OMS em 2008 e atualizado em versões subsequentes, como o mhGAP Intervention Guide de 2016 e 2019. Esse guia foi concebido para ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental, especialmente em contextos de baixa e média renda, nos quais a continuidade do tratamento é frequentemente limitada. Dentro desse modelo, a OMS recomenda que intervenções em saúde mental sejam estruturadas de forma a incluir avaliação e intervenção no mesmo encontro clínico, evitando a dependência de múltiplas sessões para o início do benefício terapêutico. Em diversos módulos do mhGAP — como os relacionados à depressão, uso de substâncias e comportamento suicida — há orientação explícita para que o profissional realize intervenções psicossociais breves, frequentemente passíveis de serem aplicadas em uma única sessão, com duração variável entre poucos minutos e cerca de meia hora, incluindo devolutiva, psicoeducação e planejamento inicial de cuidados.
Essa diretriz está alinhada a um corpo mais amplo de recomendações da OMS sobre intervenções breves, desenvolvidas e atualizadas ao longo das últimas décadas. Tais intervenções são descritas como estratégias focais, estruturadas e de aplicação imediata, cujo objetivo é produzir impacto clínico significativo mesmo em contatos limitados. A OMS enfatiza que essas abordagens devem ser não apenas avaliativas, mas também ativamente terapêuticas, podendo ser implementadas inclusive por profissionais não especialistas, como parte de estratégias de ampliação de acesso e de integração da saúde mental à atenção primária. Essa perspectiva reforça a ideia de que o cuidado em saúde mental não pode depender exclusivamente de vínculos prolongados ou de processos terapêuticos extensos para gerar resultados iniciais.
Outro eixo fundamental das recomendações da OMS é o modelo de cuidado escalonado (stepped care), amplamente presente em seus documentos técnicos. Nesse modelo, o tratamento é organizado em níveis progressivos de intensidade, iniciando-se com intervenções de baixa intensidade, alto alcance e rápida implementação, que podem ser oferecidas já no primeiro contato com o paciente. Caso necessário, o cuidado é posteriormente intensificado. Esse arranjo responde diretamente ao desafio do “treatment gap”, reconhecendo que uma grande parcela da população com sofrimento psíquico nunca chega a acessar tratamentos especializados ou de longa duração. Assim, há uma ênfase clara na necessidade de intervenções iniciais eficazes, acessíveis e potencialmente suficientes para uma parte significativa dos casos.
Além disso, em áreas específicas como a prevenção do suicídio, a OMS recomenda explicitamente intervenções imediatas e contatos precoces, incluindo estratégias de acompanhamento ativo mesmo após um único atendimento. Essas recomendações reforçam a importância de não postergar a intervenção clínica sob a expectativa de continuidade do tratamento, mas sim de atuar de forma efetiva desde o primeiro encontro.
Embora a formulação de que “muitos pacientes comparecem apenas à primeira sessão” seja mais diretamente encontrada na literatura científica internacional do que nos documentos oficiais da OMS, é evidente que as diretrizes da organização operam a partir desse pressuposto implícito, especialmente em contextos de alta demanda, recursos limitados e barreiras de acesso. Dessa forma, pode-se afirmar com precisão que a OMS estrutura seus modelos de cuidado considerando que cada encontro clínico deve ser potencialmente resolutivo, ou ao menos significativamente interventivo.
Do ponto de vista clínico, isso implica que a primeira consulta deve integrar, de maneira intencional, uma avaliação significativa, uma devolutiva inicial compreensível, intervenções psicoterapêuticas breves e orientações práticas que possam gerar alívio, insight ou mudanças comportamentais iniciais. Essa concepção converge diretamente com abordagens contemporâneas como a Avaliação Terapêutica, as intervenções focais e a psicoterapia breve baseada em evidências, que buscam maximizar a efetividade clínica em curto prazo sem comprometer a qualidade do cuidado.
Nesse contexto, a própria OMS descreve, de forma explícita em suas diretrizes sobre intervenções breves para uso de substâncias, que tais intervenções podem ser realizadas em um único encontro clínico, com duração aproximada de 5 a 30 minutos, incluindo feedback individualizado, orientação e um plano inicial de cuidado, com eventual oferta de seguimento. Essa formulação aparece, por exemplo, nos materiais do mhGAP voltados ao manejo do uso nocivo de álcool e outras substâncias, nos quais se afirma que a intervenção breve “should comprise a single session of 5–30 minutes duration, incorporating individualised feedback and advice (…) and the offer of follow-up” (World Health Organization, 2016/2019).
Essa diretriz está alinhada a um corpo mais amplo de recomendações da OMS sobre intervenções breves, desenvolvidas e atualizadas ao longo das últimas décadas. Tais intervenções são descritas como estratégias focais, estruturadas e de aplicação imediata, cujo objetivo é produzir impacto clínico significativo mesmo em contatos limitados. A OMS enfatiza que essas abordagens devem ser não apenas avaliativas, mas também ativamente terapêuticas, podendo ser implementadas inclusive por profissionais não especialistas, como parte de estratégias de ampliação de acesso e de integração da saúde mental à atenção primária. Essa perspectiva reforça a ideia de que o cuidado em saúde mental não pode depender exclusivamente de vínculos prolongados ou de processos terapêuticos extensos para gerar resultados iniciais.
Em síntese, embora a OMS não utilize formulações simplificadas ou generalizantes sobre a frequência de comparecimento dos pacientes, suas diretrizes ao longo das últimas décadas evidenciam uma mudança paradigmática: há uma clara orientação para que os profissionais de saúde mental desenvolvam práticas capazes de produzir impacto clínico desde o primeiro contato, reconhecendo as limitações reais de adesão e acesso que caracterizam os sistemas de saúde contemporâneos.
Referências (seleção relevante):
World Health Organization. mhGAP Intervention Guide for mental, neurological and substance use disorders in non-specialized health settings. Geneva: WHO; 2016 (versão 2.0 atualizada em 2019).
World Health Organization. Mental Health Gap Action Programme (mhGAP). Geneva: WHO; 2008–presente.
World Health Organization. Guidelines for the management of physical health conditions in adults with severe mental disorders. Geneva: WHO; 2018.
World Health Organization. Preventing suicide: a resource for health professionals. Geneva: WHO; 2012.
World Health Organization. Brief intervention for hazardous and harmful drinking: a manual for use in primary care. Geneva: WHO; 2001.
World Health Organization. Integrating mental health into primary care: a global perspective. Geneva: WHO & WONCA; 2008.
World Health Organization. WHO guideline on self-care interventions for health and well-being. Geneva: WHO; 2021.
Ricardo Santana, Neuropsicólogo, CRP15 0180, (82)99988-3001, Maceió/AL
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