O BRASIL COMO O PAÍS COM A MAIOR PREVALÊNCIA DE TRANSTORNOS DE ANSIEDADE NO MUNDO: UMA ANÁLISE EPIDEMIOLÓGICA, CLÍNICA, NEUROPSICOLÓGICA E SOCIOCULTURAL


Introdução

Os transtornos de ansiedade figuram entre as condições psiquiátricas mais prevalentes no mundo contemporâneo, representando importante causa de sofrimento psíquico, incapacidade funcional e prejuízo social. Embora a ansiedade, em sua dimensão fisiológica, constitua um mecanismo adaptativo necessário à sobrevivência, sua manifestação excessiva, persistente e desproporcional caracteriza um quadro psicopatológico que demanda atenção clínica e de saúde pública. Nesse cenário, o Brasil ocupa posição particularmente preocupante, sendo reiteradamente apontado como o país com a maior prevalência proporcional de transtornos de ansiedade no mundo.

Dados internacionalmente reconhecidos, divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), indicam que 9,3% da população brasileira apresenta transtornos de ansiedade, o que corresponde a aproximadamente 18,6 a 19 milhões de pessoas, percentual superior à média global, estimada em torno de 3,6% a 4%.  Mais recentemente, levantamentos nacionais ampliam a magnitude do problema, mostrando que 26,8% dos brasileiros relatam diagnóstico médico de ansiedade, equivalente a cerca de 56 milhões de pessoas, dependendo do critério epidemiológico utilizado. 

Esses dados evidenciam que a ansiedade no Brasil ultrapassa a dimensão individual, configurando-se como fenômeno coletivo, multifatorial e estrutural.

Fundamentação epidemiológica e contexto brasileiro

A liderança brasileira nesse ranking mundial não deve ser interpretada apenas como um dado estatístico isolado. Trata-se de um reflexo direto das condições históricas, sociais, políticas e econômicas que caracterizam a realidade nacional.

O país apresenta, historicamente, altos níveis de desigualdade social, instabilidade econômica, insegurança pública e precarização das relações de trabalho. A exposição crônica a tais fatores produz um estado contínuo de preocupação antecipatória, medo e hipervigilância, componentes centrais dos transtornos ansiosos. Especialistas apontam que fatores como desemprego, incerteza financeira, violência urbana e falta de acesso consistente à rede de cuidado em saúde mental estão entre os principais determinantes dessa prevalência elevada. 

Além disso, o contexto urbano brasileiro, especialmente nas grandes metrópoles, contribui significativamente para o adoecimento psíquico. Rotinas marcadas por deslocamentos longos, trânsito intenso, excesso de demandas profissionais e escassez de tempo para lazer e descanso geram uma sobrecarga psicofisiológica crônica.

O aumento dos atendimentos por ansiedade no Sistema Único de Saúde (SUS) também confirma essa tendência. Entre janeiro e outubro de 2024, foram registrados 671.305 atendimentos ambulatoriais por ansiedade, com crescimento expressivo em relação ao ano anterior.

Aspectos clínicos e psicopatológicos

Do ponto de vista clínico, a ansiedade patológica pode manifestar-se de diferentes formas, incluindo:

  • transtorno de ansiedade generalizada;
  • transtorno do pânico;
  • fobia social;
  • transtornos relacionados ao estresse;
  • ansiedade associada a quadros depressivos e burnout.

Segundo o DSM-5-TR, a característica essencial desses quadros é a presença de medo ou preocupação excessiva, persistente e de difícil controle, acompanhada de sintomas somáticos e cognitivos, como:

  • taquicardia;
  • sudorese;
  • tensão muscular;
  • insônia;
  • fadiga;
  • irritabilidade;
  • prejuízo de concentração;
  • pensamentos catastróficos.

(AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022)

Em contexto clínico, observa-se que muitos pacientes brasileiros apresentam ansiedade relacionada à insegurança quanto ao futuro, medo de adoecimento, sobrecarga financeira e temor da violência cotidiana.

Perspectiva neuropsicológica

Sob a ótica neuropsicológica, a ansiedade crônica envolve alterações significativas em circuitos cerebrais ligados à regulação emocional.

As principais estruturas envolvidas incluem:

  • amígdala cerebral — hiperreatividade à ameaça;
  • hipocampo — memória emocional e contextualização do medo;
  • córtex pré-frontal dorsolateral — controle executivo;
  • córtex ventromedial — regulação afetiva.

A hiperativação da amígdala favorece a interpretação de estímulos neutros como ameaçadores, enquanto a redução da modulação pré-frontal dificulta a inibição de pensamentos intrusivos e a reavaliação cognitiva.

Esse padrão explica sintomas frequentemente observados em avaliação neuropsicológica, como:

  • ruminação;
  • hipervigilância;
  • viés atencional para ameaça;
  • queda no desempenho executivo;
  • prejuízo na memória operacional.

Para a prática clínica do neuropsicólogo, esse aspecto é particularmente relevante, pois a ansiedade elevada pode impactar significativamente testes de atenção, funções executivas e memória.

Aspectos socioculturais e uso excessivo de telas

Outro fator fortemente associado ao aumento da ansiedade no Brasil é a hiperconectividade.

O país está entre os que apresentam maior tempo médio diário de uso de redes sociais e smartphones. Estudos e análises recentes apontam que o uso excessivo de telas se relaciona a:

  • comparação social constante;
  • pressão por desempenho;
  • busca de validação externa;
  • privação do sono;
  • hiperestimulação cognitiva.

Especialmente entre adolescentes e adultos jovens, a exposição contínua a conteúdos idealizados e a notificações permanentes contribui para um estado de alerta persistente.

Esse fenômeno também ajuda a explicar o crescimento de 136% nas internações relacionadas a estresse e ansiedade entre jovens de 13 a 29 anos entre 2013 e 2023. 

Impactos na saúde pública

A ansiedade em larga escala representa um importante problema de saúde pública.

Além do sofrimento subjetivo, associa-se a:

  • maior risco cardiovascular;
  • piora da qualidade do sono;
  • queda de produtividade;
  • absenteísmo;
  • aumento do uso de substâncias;
  • maior risco de depressão.

O fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e dos CAPS torna-se essencial. Em 2024, o Brasil ultrapassou 3.000 CAPS em funcionamento, evidenciando avanço institucional importante.

Ainda assim, permanece a necessidade de políticas preventivas voltadas às causas estruturais do sofrimento psíquico.

Conclusão

Conclui-se que o Brasil ocupar a liderança mundial em prevalência de transtornos de ansiedade constitui um fenômeno complexo, multifatorial e profundamente enraizado nas condições históricas, sociais, econômicas e culturais do país.

Mais do que um dado epidemiológico, esse cenário expressa o sofrimento psíquico contemporâneo do sujeito brasileiro, exigindo intervenções integradas em saúde mental, educação, políticas públicas e cuidado clínico especializado.

Referências

PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. Washington, DC: APA, 2022.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Transtornos mentais e ansiedade. Geneva: WHO, 2025.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Saúde mental nas Américas. Washington, 2025.

COVITEL. Inquérito telefônico de fatores de risco para doenças crônicas e saúde mental. Brasil, 2024. 

OMS/OPAS. Prevalência de transtornos de ansiedade no Brasil. 

Ricardo Santana, Neuropsicólogo, CRP15 0189, (82)99988-3001, Maceió/AL

#ansiedade

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