O ponto de vista da neuropsicologia quanto à sensação de “preguiça” relatada por muitas pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Do ponto de vista neuropsicológico, a sensação de “preguiça” relatada por muitas pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nem sempre corresponde à preguiça no sentido comum da palavra. Frequentemente, ela reflete dificuldades neurobiológicas relacionadas à motivação, ao planejamento motor, ao processamento sensorial, à regulação emocional e às funções executivas.

No cérebro da pessoa com TEA, uma das hipóteses mais estudadas envolve alterações nos circuitos frontoestriatais, especialmente aqueles que conectam o córtex pré-frontal aos gânglios da base. Essas redes participam da iniciação do comportamento, da manutenção da motivação e da capacidade de transformar uma intenção em ação. Assim, o indivíduo pode desejar fazer exercícios, reconhecer seus benefícios e até planejar a atividade, mas encontrar grande dificuldade para iniciar o comportamento, fenômeno conhecido como dificuldade de ativação comportamental.

Além disso, estudos de neuroimagem sugerem diferenças no funcionamento dos sistemas dopaminérgicos de recompensa. A dopamina está relacionada à antecipação do prazer e à motivação para agir. Em muitas pessoas com TEA, atividades físicas podem não produzir inicialmente o mesmo nível de recompensa antecipatória observado em indivíduos neurotípicos. Como consequência, a energia mental necessária para começar o exercício pode parecer desproporcionalmente elevada, gerando a impressão subjetiva de “falta de vontade”.

Outro aspecto importante é o processamento sensorial. Muitos indivíduos autistas apresentam hipersensibilidade ou hipossensibilidade a estímulos corporais. Sensações como suor, aumento da frequência cardíaca, contato das roupas com a pele, ruídos do ambiente, iluminação intensa ou movimentação de outras pessoas podem ser experimentadas como desconfortáveis ou até aversivas. Nesse contexto, evitar a atividade física pode representar uma estratégia de autorregulação sensorial e não uma falta de disciplina.

As dificuldades de funções executivas também desempenham papel relevante. O córtex pré-frontal é responsável por organizar etapas, gerenciar tempo, alternar tarefas e manter objetivos de longo prazo. Quando essas habilidades estão comprometidas, atividades que exigem preparação prévia — trocar de roupa, deslocar-se até a academia, adaptar a rotina e monitorar o desempenho — podem parecer excessivamente complexas. O esforço cognitivo necessário para iniciar a atividade pode ser interpretado pelo próprio indivíduo como preguiça.

Adicionalmente, muitas pessoas com TEA apresentam comorbidades como ansiedade, depressão, TDAH, distúrbios do sono e fadiga crônica. Essas condições podem reduzir significativamente a energia física e mental disponível para a prática de exercícios. Nesses casos, a aparente preguiça pode ser, na realidade, consequência de exaustão neurofisiológica.

Há ainda o componente motor. Pesquisas demonstram que uma parcela significativa dos indivíduos com TEA apresenta alterações de coordenação motora, planejamento motor (dispraxia) e consciência corporal. Como resultado, atividades físicas podem exigir maior esforço neural para serem executadas, tornando-as mais cansativas e menos espontaneamente gratificantes.

Portanto, quando um paciente com TEA afirma que está com preguiça de se exercitar, o clínico deve investigar cuidadosamente fatores como motivação, funcionamento executivo, sensibilidade sensorial, processamento de recompensa, habilidades motoras, qualidade do sono e presença de comorbidades psiquiátricas. Em muitos casos, o que parece preguiça é, na verdade, uma combinação de dificuldades neurobiológicas que aumentam o custo cognitivo e emocional da atividade física.

Como observação clínica, muitos pacientes autistas relatam uma experiência paradoxal: antes do exercício sentem forte resistência para começar, mas após alguns minutos de atividade referem melhora do humor, redução da ansiedade e sensação de bem-estar. Isso sugere que o principal obstáculo frequentemente não está na execução do exercício em si, mas na transição entre a intenção e a ação, um processo fortemente dependente dos sistemas executivos e motivacionais do cérebro. Estudos recentes indicam que estratégias de estruturação ambiental, rotinas previsíveis, reforçadores imediatos e atividades alinhadas aos interesses específicos do indivíduo podem reduzir significativamente essa barreira inicial.

Referências

  • American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). Washington, DC: APA, 2022.
  • Hill, E. L. Executive dysfunction in autism. Trends in Cognitive Sciences, v. 8, n. 1, p. 26–32, 2004.
  • Mosconi, M. W. et al. Motor dysfunction in autism: neurobiological bases and implications. Current Opinion in Neurology, v. 28, n. 2, p. 110–116, 2015.
  • Dichter, G. S. Reward circuitry function in autism spectrum disorders. Social Cognitive and Affective Neuroscience, v. 7, n. 2, p. 160–172, 2012.
  • Craig, F. et al. Overload, stress and emotional regulation in autism spectrum disorder. Neuropsychiatric Disease and Treatment, v. 12, p. 2643–2652, 2016.

Ricardo Santana, Neuropsicólogo, CRP15 0180, WhatsApp: (82)99988-3001, Maceió/AL

#TEA 

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