O Teste de Rorschach Perene

O Teste de Rorschach Perene
O Método Antes das Escolas: fundamentos
epistemológicos para uma análise comparativa do Método de Rorschach
O Método de Rorschach desenvolveu-se, ao longo de mais
de um século, por meio de diferentes escolas e sistemas interpretativos, cada
qual responsável por importantes contribuições metodológicas, conceituais e
clínicas. Tradicionalmente, a literatura especializada descreve essa evolução
enfatizando diferenças entre autores, referenciais teóricos e procedimentos de
codificação. O presente capítulo propõe uma perspectiva distinta. Parte-se da
hipótese de que a identidade científica do Método de Rorschach não pode ser
compreendida exclusivamente pela comparação entre escolas, mas pela
investigação dos fenômenos que permaneceram historicamente estáveis apesar das
transformações metodológicas ocorridas desde a publicação de Psychodiagnostik
(1921). Propõe-se, assim, uma abordagem epistemológica baseada na distinção
entre fenômeno observado, modelo metodológico e processo interpretativo. Essa
perspectiva constitui o fundamento teórico dos capítulos subsequentes, nos
quais cada componente estrutural do Método de Rorschach será analisado
comparativamente entre as principais tradições históricas.
Poucos instrumentos da Psicologia Clínica apresentam
uma história tão rica quanto o Método de Rorschach.
Desde sua publicação por Hermann Rorschach, em 1921,
diferentes pesquisadores dedicaram-se ao aperfeiçoamento de seus procedimentos
de aplicação, classificação, interpretação e validação científica.
Desse movimento nasceram escolas que marcaram
profundamente a história da avaliação psicológica.
Samuel Beck
Bruno Klopfer
Zygmunt Piotrowski
David Rapaport
John Exner
A Escola Francesa
A Escola Argentina
Mais recentemente, diferentes sistemas contemporâneos,
entre eles o R-PAS, ampliaram ainda mais esse processo de desenvolvimento
científico.
Tradicionalmente, a literatura descreve essa evolução
enfatizando diferenças entre essas tradições.
Comparam-se procedimentos de codificação.
Critérios normativos.
Modelos interpretativos.
Fundamentos teóricos.
Estratégias clínicas.
Essa perspectiva produziu importantes avanços
científicos.
Entretanto, ela deixa praticamente sem resposta uma
questão mais fundamental.
O que todas essas escolas preservaram?
Responder a essa pergunta constitui o objetivo central
da presente investigação.
O Problema Científico
Toda ciência madura distingue claramente seu objeto de
investigação dos instrumentos utilizados para estudá-lo. A Física não se
confunde com seus equipamentos experimentais. A Biologia não se confunde com
seus microscópios. A Neuropsicologia não se confunde com seus testes. Entretanto,
no campo do Método de Rorschach, essa distinção nem sempre recebeu atenção
equivalente. Com frequência, o método passou a ser identificado com
determinados sistemas interpretativos. Essa aproximação produziu um efeito
colateral importante.
A história do método passou a ser narrada como
sucessão de escolas. Consequentemente, tornou-se menos visível aquilo que
permaneceu constante ao longo dessa própria história.
Este livro, esta apresentação, parte da hipótese de
que o objeto científico do Método de Rorschach antecede as escolas responsáveis
por seu desenvolvimento. As escolas representam formas historicamente
construídas para observar, organizar, mensurar e interpretar determinados
fenômenos. Esses fenômenos, entretanto, possuem continuidade histórica própria.
Uma Mudança de Perspectiva
A proposta metodológica desta obra consiste em
inverter o ponto de partida tradicional.
Em vez de iniciar pelas escolas para, posteriormente,
examinar seus indicadores, propõe-se iniciar pelos próprios fenômenos.
Pergunta-se, inicialmente:
O fenômeno existe em Hermann Rorschach?
Continua presente em Beck?
Permanece em Klopfer?
É preservado por Piotrowski?
Mantém-se em Rapaport?
Continua sendo observado por Exner?
Permanece reconhecível nos sistemas contemporâneos?
Quando a resposta é afirmativa, torna-se possível
investigar aquilo que efetivamente pertence ao Método de Rorschach. Esta
mudança de perspectiva desloca o foco da comparação entre teorias para a
investigação da permanência histórica dos fenômenos.
Hipótese Central
A hipótese que orienta toda esta investigação pode ser
sintetizada da seguinte maneira:
Os fenômenos fundamentais do Método de
Rorschach apresentam continuidade histórica significativamente maior do que os
modelos metodológicos utilizados para descrevê-los.
Caso essa hipótese seja confirmada, será possível
distinguir três níveis relativamente independentes de organização científica.
O primeiro corresponde aos fenômenos fundamentais
observados durante a aplicação.
O segundo corresponde aos sistemas metodológicos
desenvolvidos para registrá-los, classificá-los e organizá-los.
O terceiro corresponde aos modelos interpretativos
destinados a produzir compreensão clínica.
Essa distinção permitirá compreender que grande parte
das divergências historicamente atribuídas às escolas situa-se no segundo e no
terceiro níveis, preservando relativa estabilidade do primeiro.
Critérios de Investigação
Para analisar cada componente estrutural do Método de
Rorschach serão utilizados quatro critérios.
O primeiro será a continuidade histórica. Investigar-se-á
a permanência do fenômeno desde Hermann Rorschach até as principais tradições
contemporâneas.
O segundo será a identidade conceitual. Será analisado
se diferentes escolas continuam observando o mesmo fenômeno, ainda que utilizem
terminologias distintas.
O terceiro será a presença transversal. Será
verificado o número de tradições que preservam determinado componente.
O quarto será a função metodológica. Será investigado
se o fenômeno desempenha papel indispensável para a realização da avaliação ou
se constitui apenas desenvolvimento específico de determinada escola.
Estes quatro critérios serão aplicados
sistematicamente a todos os capítulos desta obra.
Estrutura da Investigação
Os capítulos subsequentes examinarão, separadamente,
os principais componentes do Método de Rorschach.
Cada capítulo seguirá exatamente a mesma estrutura
metodológica.
Inicialmente será definido o fenômeno em sua forma
mais elementar.
Em seguida será investigada sua presença histórica.
Posteriormente será analisado seu tratamento nas
principais escolas.
Serão identificadas convergências e diferenças.
Serão discutidas suas implicações epistemológicas.
Ao final de cada capítulo será apresentada uma
conclusão específica acerca da posição ocupada por aquele fenômeno dentro da
identidade científica do Método de Rorschach.
A repetição deliberada dessa estrutura possui
finalidade metodológica. Ela permitirá comparar os diferentes fenômenos segundo
exatamente os mesmos critérios científicos.
Considerações Iniciais
Esta obra não pretende estabelecer hierarquia entre
escolas. Também não procura demonstrar superioridade de qualquer sistema
interpretativo. Seu objetivo é diferente. Procura compreender aquilo que tornou
possível o surgimento de todas essas tradições.
Sob essa perspectiva, Beck, Klopfer, Piotrowski,
Rapaport, Exner, Passalacqua, Chabert e tantos outros deixam de ser
compreendidos como representantes de métodos concorrentes.
Passam a ser reconhecidos como diferentes momentos da
evolução científica de um mesmo método. Essa mudança de perspectiva talvez
represente a principal contribuição epistemológica da presente investigação. Ela
permite compreender que o Método de Rorschach possui identidade histórica
própria, relativamente independente das escolas responsáveis por seu
extraordinário desenvolvimento.
É essa hipótese que orientará todos os capítulos
seguintes.
Referências
Anzieu, D. Le Rorschach. Paris: Presses
Universitaires de France.
Beck, S. J. Rorschach's Test: Basic Processes.
New York: Grune & Stratton.
Chabert, C. Le Rorschach en Clinique Adulte.
Paris: Dunod.
Exner Jr., J. E. The Rorschach: A Comprehensive
System. New York: John Wiley & Sons.
Klopfer, B.; Davidson, H. H. The Rorschach
Technique: An Introductory Manual. New York: Harcourt, Brace.
Passalacqua, A. El Psicodiagnóstico de Rorschach.
Buenos Aires.
Piotrowski, Z. A. Perceptanalysis. New York:
Macmillan.
Rapaport, D.; Gill, M. M.; Schafer, R. Diagnostic Psychological
Testing. New York: International Universities Press.
Rorschach, H. Psychodiagnostik. Bern: Bircher,
1921.
Weiner, I. B. Principles of Rorschach
Interpretation. Mahwah: Lawrence Erlbaum Associates.
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