ATENÇÃO: IMPORTÂNCIA, TIPOS E SUAS ALTERAÇÕES NOS TRANSTORNOS MENTAIS

ATENÇÃO: IMPORTÂNCIA, TIPOS E SUAS ALTERAÇÕES NOS TRANSTORNOS MENTAIS
Resumo
A atenção constitui um dos processos cognitivos fundamentais para a adaptação do indivíduo ao ambiente, estando diretamente relacionada à percepção, memória, aprendizagem, linguagem, funções executivas e regulação do comportamento. Embora frequentemente empregada como se fosse uma capacidade unitária, a atenção corresponde a um conjunto complexo de processos que permitem selecionar informações relevantes, manter o foco por determinado período, alternar o foco entre diferentes estímulos e distribuir recursos cognitivos entre tarefas simultâneas. Alterações atencionais podem ocorrer tanto em transtornos nos quais a atenção constitui uma manifestação central, como no Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), quanto em diferentes condições psiquiátricas, incluindo transtornos depressivos, transtornos de ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtornos relacionados ao trauma e transtornos neurocognitivos. O presente artigo tem como objetivo discutir a natureza da atenção, seus principais tipos, modelos teóricos e bases neurocognitivas, bem como analisar suas alterações em diferentes transtornos mentais. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, fundamentada em estudos clássicos da Psicologia Cognitiva e Neuropsicologia e em revisões sistemáticas e metanálises contemporâneas. Argumenta-se que as alterações atencionais devem ser compreendidas de maneira dimensional e contextual, considerando não apenas a quantidade de atenção disponível, mas também sua qualidade, seletividade, flexibilidade, controle executivo e direcionamento. Conclui-se que a investigação da atenção possui importância clínica e neuropsicológica significativa, contribuindo para a formulação de hipóteses diagnósticas, diferenciação entre transtornos, planejamento terapêutico e monitoramento da evolução clínica.
Palavras-chave: atenção; funções cognitivas; neuropsicologia; psicopatologia; transtornos mentais; avaliação neuropsicológica.
1. Introdução
A atenção é uma das funções cognitivas mais importantes para a interação adaptativa do indivíduo com o mundo. A cada instante, o organismo é exposto a uma quantidade de estímulos sensoriais, pensamentos, memórias, emoções e informações ambientais que excede amplamente sua capacidade de processamento consciente. A atenção exerce, nesse contexto, uma função de seleção e organização, permitindo que determinados estímulos sejam priorizados enquanto outros permanecem em segundo plano.
A relevância da atenção ultrapassa, portanto, a simples capacidade de “prestar atenção”. Ela participa da seleção da informação, da manutenção do estado de alerta, da orientação do comportamento, do controle da interferência, da memória de trabalho, da aprendizagem e da execução de atividades dirigidas a objetivos. Consequentemente, alterações atencionais podem produzir repercussões importantes no desempenho acadêmico, profissional, social e cotidiano.
Na perspectiva contemporânea, a atenção não é considerada um processo unitário. Modelos neurocognitivos descrevem diferentes sistemas e mecanismos atencionais, incluindo alerta, orientação, atenção seletiva, atenção sustentada, atenção dividida e controle executivo. Posner e Petersen (1990) propuseram uma influente concepção segundo a qual diferentes operações atencionais podem ser associadas a sistemas parcialmente diferenciados. Posteriormente, Posner e Petersen (2012) atualizaram esse modelo à luz dos avanços das neurociências cognitivas.
Essa concepção é particularmente importante para a Psicologia e a Neuropsicologia porque permite compreender por que duas pessoas podem apresentar a mesma queixa subjetiva — por exemplo, “não consigo me concentrar” — em decorrência de mecanismos completamente diferentes.
Um indivíduo com TDAH pode apresentar dificuldade persistente em sustentar o foco e inibir estímulos concorrentes; uma pessoa deprimida pode apresentar redução da velocidade de processamento e dificuldades de concentração associadas à ruminação; um indivíduo ansioso pode direcionar seletivamente a atenção para sinais de ameaça; uma pessoa com esquizofrenia pode apresentar alterações complexas na seleção, controle e direcionamento da atenção; e um paciente com delirium pode apresentar comprometimento global e flutuante da atenção e da consciência.
Essa diversidade demonstra que “déficit de atenção” não constitui, por si só, um diagnóstico. A alteração atencional deve ser investigada considerando sua natureza, intensidade, curso temporal, contexto de ocorrência, relação com outros processos cognitivos e associação com sintomas emocionais e comportamentais.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define os transtornos mentais como condições caracterizadas por alterações clinicamente significativas na cognição, na regulação emocional ou no comportamento, geralmente associadas a sofrimento ou prejuízo funcional. Nesse contexto, a atenção pode constituir tanto um componente central da manifestação clínica quanto uma função secundariamente afetada por alterações emocionais, psicóticas, comportamentais ou neurocognitivas. (Organização Mundial da Saúde)
O objetivo deste artigo é discutir a importância da atenção, seus principais tipos, fundamentos teóricos e neurocognitivos, bem como suas manifestações alteradas nos principais grupos de transtornos mentais.
2. Conceito de atenção
A definição de atenção apresenta dificuldades históricas justamente porque o termo reúne diferentes processos cognitivos.
William James (1890) descreveu a atenção como a tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um entre aquilo que parece ser vários objetos ou linhas de pensamento simultaneamente possíveis. Essa formulação clássica permanece relevante porque enfatiza a existência de uma capacidade limitada de seleção.
A Psicologia Cognitiva posteriormente passou a compreender a atenção como um conjunto de mecanismos responsáveis por selecionar, priorizar, manter e controlar o processamento de determinadas informações.
Broadbent (1958), em seu modelo de filtro, propôs que o sistema cognitivo dispõe de capacidade limitada e que mecanismos atencionais atuariam como filtros para impedir que todas as informações disponíveis fossem processadas de maneira equivalente.
Treisman (1964), por sua vez, modificou essa perspectiva ao propor o modelo de atenuação. Segundo essa concepção, informações não selecionadas não seriam necessariamente eliminadas, mas sofreriam redução de sua intensidade de processamento.
Posteriormente, modelos como o de Kahneman (1973) enfatizaram a atenção como uma capacidade limitada de recursos, cuja distribuição dependeria das demandas da tarefa, da motivação, do estado de alerta e de características do indivíduo.
Na concepção contemporânea, portanto, é mais adequado falar em sistemas ou componentes atencionais do que em uma única “atenção”.
Essa distinção é fundamental na prática clínica.
Uma pessoa pode apresentar:
- boa atenção seletiva, mas baixa atenção sustentada;
- boa atenção sustentada, mas dificuldade de alternância;
- capacidade de manter o foco, mas baixa resistência à interferência;
- velocidade adequada de processamento, mas dificuldades de controle executivo;
- atenção preservada em tarefas estruturadas, mas desempenho comprometido em situações ecológicas complexas.
Dessa maneira, a investigação neuropsicológica precisa evitar interpretações excessivamente globais.
3. A atenção como processo limitado
Uma das características fundamentais da atenção é sua capacidade limitada.
O cérebro recebe continuamente informações provenientes do ambiente externo e do próprio organismo. Entretanto, o sistema cognitivo não consegue processar todas essas informações com o mesmo nível de profundidade.
A atenção permite estabelecer prioridades.
Essa limitação não deve ser compreendida exclusivamente como uma deficiência. Ao contrário, ela constitui uma propriedade adaptativa do sistema cognitivo. Se todos os estímulos fossem processados com a mesma intensidade, haveria enorme dificuldade para selecionar aquilo que é relevante para a ação.
Kahneman (1973) demonstrou que a alocação de recursos atencionais depende da demanda da tarefa e das características do indivíduo. Uma tarefa automatizada, por exemplo, pode consumir menos recursos atencionais do que uma atividade nova e complexa.
A atenção também sofre influência de fatores como:
- sono;
- fadiga;
- estresse;
- motivação;
- emoções;
- interesse;
- uso de substâncias;
- dor;
- estado de alerta;
- características ambientais.
Por essa razão, desempenho atencional não pode ser interpretado isoladamente do estado clínico do indivíduo.
4. Principais tipos de atenção
4.1 Atenção seletiva
A atenção seletiva corresponde à capacidade de direcionar o processamento para determinados estímulos enquanto se reduz a interferência provocada por informações concorrentes.
É o mecanismo que permite, por exemplo, conversar com alguém em um ambiente relativamente movimentado, ler um texto enquanto existem ruídos externos ou concentrar-se em uma tarefa apesar da presença de estímulos irrelevantes.
A atenção seletiva está diretamente relacionada aos mecanismos de filtragem e controle da interferência.
Na perspectiva de Corbetta e Shulman (2002), o controle atencional envolve sistemas parcialmente diferenciados relacionados tanto à orientação voluntária da atenção quanto à captura da atenção por estímulos relevantes ou inesperados. (PubMed)
Alterações nesse componente podem resultar em:
- maior distraibilidade;
- dificuldade para ignorar estímulos irrelevantes;
- interferência excessiva;
- dificuldade para manter uma tarefa diante de estímulos concorrentes.
4.2 Atenção sustentada
A atenção sustentada refere-se à capacidade de manter um nível adequado de desempenho atencional durante determinado período.
É fundamental para atividades como:
- assistir a uma aula;
- dirigir;
- acompanhar uma reunião;
- realizar tarefas repetitivas;
- revisar documentos;
- executar atividades profissionais prolongadas.
A atenção sustentada não significa simplesmente “ficar olhando” para uma tarefa. Envolve manter vigilância, detectar estímulos relevantes e preservar desempenho ao longo do tempo.
Sua redução pode produzir fenômenos como:
- lapsos atencionais;
- omissões;
- queda progressiva do desempenho;
- lentificação;
- perda de informações;
- necessidade frequente de retomada da tarefa.
4.3 Atenção alternada
A atenção alternada corresponde à capacidade de deslocar o foco entre diferentes estímulos, tarefas ou regras.
Um exemplo cotidiano ocorre quando uma pessoa precisa interromper temporariamente uma atividade, responder a uma solicitação e depois retornar à tarefa original.
Esse processo exige flexibilidade cognitiva e capacidade de reorganização do foco atencional.
A dificuldade de alternância pode ocorrer em condições que envolvem comprometimento executivo, alterações frontais e determinados transtornos neurocognitivos.
4.4 Atenção dividida
A atenção dividida refere-se à capacidade de distribuir recursos atencionais entre duas ou mais demandas simultâneas.
Entretanto, a expressão “atenção dividida” deve ser utilizada com cautela. Em muitas situações, aquilo que subjetivamente parece processamento simultâneo corresponde, na realidade, a rápidas alternâncias entre tarefas.
A capacidade de realizar simultaneamente duas atividades depende de fatores como:
- complexidade das tarefas;
- grau de automatização;
- similaridade entre os estímulos;
- quantidade de recursos cognitivos necessários;
- velocidade de processamento.
Quando duas tarefas competem pelos mesmos recursos cognitivos, o desempenho tende a sofrer redução.
4.5 Atenção concentrada
O termo atenção concentrada é bastante utilizado na prática psicológica brasileira, especialmente no contexto de instrumentos psicométricos. Em sentido amplo, refere-se à capacidade de manter o foco em estímulos relevantes durante determinada atividade, reduzindo a interferência de informações concorrentes.
Entretanto, é importante não confundir “atenção concentrada” com uma categoria neurocognitiva absolutamente independente.
Dependendo do instrumento e do modelo teórico utilizado, o construto pode envolver componentes de atenção seletiva, sustentada, velocidade de processamento e controle da interferência.
Essa distinção é particularmente importante para a interpretação de testes psicológicos.
5. Alerta e vigilância
O estado de alerta constitui uma condição básica para o funcionamento atencional.
Podemos distinguir, de maneira simplificada:
- alerta tônico, relacionado ao nível geral de ativação e prontidão do organismo;
- alerta fásico, relacionado à capacidade de aumentar temporariamente a preparação para responder a um estímulo.
A vigilância, por sua vez, envolve a manutenção do estado de prontidão para detectar eventos relevantes durante períodos prolongados.
Alterações nesses mecanismos podem ocorrer em condições como privação de sono, fadiga, intoxicação, abstinência de determinadas substâncias, depressão, transtornos neurocognitivos e estados delirantes.
6. Atenção e controle executivo
A atenção mantém relação estreita com as funções executivas.
Para realizar uma tarefa dirigida a objetivos, não basta selecionar uma informação. É necessário:
- estabelecer objetivos;
- manter representações relevantes;
- inibir respostas inadequadas;
- monitorar o desempenho;
- corrigir erros;
- alternar estratégias;
- resistir à interferência.
Por esse motivo, alterações aparentemente “atencionais” podem decorrer, em determinados casos, de dificuldades executivas.
Essa distinção é particularmente importante no TDAH, em transtornos psicóticos e em quadros que envolvem comprometimento frontal.
7. Bases neurobiológicas da atenção
A atenção não depende de uma única região cerebral.
Trata-se de uma função distribuída em redes neurais que envolvem estruturas frontais, parietais, subcorticais e sistemas relacionados à modulação do estado de alerta.
Os modelos contemporâneos enfatizam a participação de diferentes redes funcionais.
Corbetta e Shulman (2002) destacaram a existência de sistemas parcialmente segregados relacionados ao controle voluntário e à captura automática da atenção. (PubMed)
Posner e Petersen (1990; 2012) propuseram uma organização envolvendo redes relacionadas ao alerta, à orientação e ao controle executivo.
Essa perspectiva modificou a ideia de que determinada função cognitiva poderia ser localizada em uma única área cerebral.
A atenção resulta da interação entre diferentes sistemas.
Entre os principais componentes neurobiológicos envolvidos podem ser citados:
- córtex pré-frontal;
- córtex parietal;
- estruturas talâmicas;
- colículos superiores;
- sistema reticular ativador;
- circuitos frontoparietais;
- sistemas neuromodulatórios envolvendo noradrenalina, dopamina e acetilcolina.
Essa organização explica por que diferentes doenças podem produzir alterações distintas da atenção.
8. Atenção e Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade
O TDAH constitui provavelmente o transtorno mental no qual a atenção recebe maior destaque nominal.
Entretanto, reduzir o TDAH simplesmente a um “déficit de atenção” é conceitualmente inadequado.
O DSM-5-TR caracteriza o transtorno por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade que interfere no funcionamento ou no desenvolvimento, com critérios específicos relativos à idade de início, presença dos sintomas em diferentes contextos e prejuízo funcional (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022). (Psychiatry Online)
No TDAH podem ocorrer dificuldades relacionadas a:
- manutenção do foco;
- organização;
- resistência à distração;
- gerenciamento do tempo;
- monitoramento de tarefas;
- memória de trabalho;
- controle da interferência;
- inibição comportamental.
Uma questão particularmente importante é que pessoas com TDAH podem demonstrar capacidade de concentração intensa em determinadas atividades altamente motivadoras. Isso mostra que o problema não pode ser reduzido à ausência absoluta de capacidade atencional.
O funcionamento atencional depende da interação entre características da tarefa, motivação, recompensa e controle executivo.
Além disso, o TDAH apresenta elevada associação com outros transtornos psiquiátricos. Estudos contemporâneos mostram associação importante com transtornos de ansiedade, depressão, transtorno bipolar e transtornos relacionados ao uso de substâncias (HARTMAN et al., 2023). (PubMed)
Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 encontrou, em crianças e adolescentes com TDAH, risco aumentado para transtornos depressivos e alguns transtornos de ansiedade, ressaltando a complexidade da comorbidade. (PubMed)
Assim, a presença de desatenção não deve automaticamente conduzir ao diagnóstico de TDAH.
9. Atenção nos transtornos depressivos
A depressão pode comprometer diferentes componentes cognitivos.
Entre as queixas frequentes encontram-se:
- dificuldade de concentração;
- sensação de “mente lenta”;
- dificuldade de manter o foco;
- indecisão;
- redução da velocidade de processamento;
- esquecimentos subjetivos;
- dificuldade de selecionar informações relevantes.
Essas alterações podem ser influenciadas pela combinação entre redução da energia, alterações motivacionais, ruminação, alterações do sono e mudanças nos mecanismos cognitivos.
Um aspecto particularmente relevante é o chamado viés atencional negativo.
Modelos cognitivos da depressão propõem que indivíduos deprimidos podem apresentar maior tendência a processar informações congruentes com estados afetivos negativos.
Uma metanálise clássica encontrou evidências de viés atencional para estímulos negativos, especialmente em estudos utilizando paradigmas como o dot-probe. (PubMed)
Mais recentemente, uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 analisou 87 estudos sobre atenção seletiva em adultos com transtorno depressivo maior. A maioria dos estudos encontrou diferenças atencionais entre participantes deprimidos e controles, embora os resultados quantitativos variassem conforme o paradigma utilizado. (PubMed)
Isso demonstra uma questão metodológica importante: não existe uma única “alteração da atenção na depressão”.
O padrão pode envolver simultaneamente:
- menor eficiência atencional;
- redução da velocidade;
- dificuldade de controle;
- ruminação;
- orientação preferencial para informações negativas.
10. Atenção nos transtornos de ansiedade
Os transtornos de ansiedade constituem outro grupo no qual as alterações atencionais assumem importância central.
A hipótese clássica é a existência de um viés de atenção para estímulos associados à ameaça.
Bar-Haim et al. (2007), em uma metanálise envolvendo 172 estudos, identificaram evidências de viés atencional relacionado à ameaça em indivíduos ansiosos. (PubMed)
Em termos funcionais, isso significa que determinados indivíduos podem apresentar maior facilidade para detectar ou priorizar informações percebidas como ameaçadoras.
Em transtornos de ansiedade generalizada, por exemplo, preocupações persistentes podem consumir recursos cognitivos e competir com demandas externas.
Uma revisão sistemática encontrou evidências de viés atencional para ameaça em indivíduos com transtorno de ansiedade generalizada, especialmente quando os estímulos eram apresentados em formato verbal. (PubMed)
Entretanto, pesquisas contemporâneas recomendam cautela na interpretação do chamado viés atencional.
Apesar de diferenças médias entre grupos, a estabilidade desse padrão dentro de cada indivíduo pode ser limitada. Ensaios e revisões recentes questionam a ideia de que cada pessoa ansiosa possua necessariamente um viés atencional estável e mensurável de maneira consistente. (PubMed)
Portanto, a ansiedade pode alterar a atenção não somente por “reduzir a concentração”, mas também por redirecionar os recursos atencionais para conteúdos associados à ameaça, preocupação e monitoramento de risco.
11. Atenção no transtorno bipolar
O transtorno bipolar também pode apresentar alterações neurocognitivas relevantes.
A literatura demonstra que dificuldades podem ocorrer em diferentes fases do transtorno, incluindo períodos de eutimia.
Entre os domínios frequentemente investigados encontram-se:
- atenção sustentada;
- memória de trabalho;
- velocidade de processamento;
- funções executivas;
- memória verbal e visual.
Uma revisão de estudos sobre transtorno bipolar encontrou evidências de prejuízos cognitivos persistentes, incluindo alterações de atenção sustentada, memória e funções executivas, inclusive fora de episódios agudos (TORRES; YATHAM, 2022). (PubMed)
Uma metanálise recente sobre velocidade de processamento e atenção sustentada avaliou 103 estudos envolvendo transtorno bipolar e depressão maior, demonstrando a relevância desses componentes cognitivos nos transtornos do humor. (PubMed)
É necessário, entretanto, distinguir alterações cognitivas associadas ao estado de humor das alterações que permanecem relativamente independentes do episódio.
Na mania, a aceleração do pensamento, a elevada distraibilidade e a dificuldade de manter o foco em estímulos relevantes podem produzir uma aparência de atenção reduzida.
Na depressão bipolar, por outro lado, podem predominar lentificação, redução da energia, dificuldades de concentração e alterações da velocidade de processamento.
12. Atenção na esquizofrenia
A atenção constitui um dos principais domínios cognitivos afetados na esquizofrenia.
As alterações podem envolver:
- alerta;
- seleção;
- controle atencional;
- filtragem de estímulos;
- manutenção do objetivo;
- processamento de informações relevantes.
Uma característica importante é que a alteração não deve ser compreendida simplesmente como “falta de concentração”.
A literatura contemporânea mostra que a atenção na esquizofrenia é multifacetada. Podem ocorrer alterações na vigilância, no controle voluntário e na seleção de informações, havendo inclusive evidências de fenômenos de hiperfocalização em determinadas circunstâncias. (PubMed)
Isso possui implicações relevantes para a compreensão dos sintomas psicóticos.
O indivíduo pode não apresentar apenas “menos atenção”, mas uma organização atencional diferente, na qual informações internas ou estímulos menos relevantes podem adquirir prioridade desproporcional.
Pallanti e Salerno (2015) destacam que a disfunção atencional constitui elemento relevante tanto na esquizofrenia quanto no TDAH, embora inserida em contextos psicopatológicos diferentes. (PubMed)
13. Atenção nos transtornos relacionados ao trauma
Experiências traumáticas podem alterar a orientação da atenção para estímulos associados a ameaça.
A hipervigilância representa um exemplo clínico importante.
O indivíduo pode permanecer constantemente atento a sinais ambientais potencialmente perigosos, mesmo quando o contexto atual não apresenta risco significativo.
Esse mecanismo pode ser adaptativo imediatamente após uma situação traumática, mas tornar-se disfuncional quando persiste de forma generalizada.
Nesse contexto, a atenção passa a ser organizada por um sistema de monitoramento de ameaça.
A consequência pode ser:
- dificuldade de relaxamento;
- aumento da vigilância;
- dificuldade de concentração;
- distração por estímulos associados ao trauma;
- reação exagerada a estímulos inesperados.
Portanto, mais uma vez, a dificuldade de concentração não necessariamente significa diminuição global da atenção.
Pode significar redistribuição patológica dos recursos atencionais.
14. Atenção nos transtornos neurocognitivos
Os transtornos neurocognitivos constituem uma área particularmente importante para a avaliação da atenção.
O DSM-5-TR inclui a atenção complexa entre os principais domínios neurocognitivos, juntamente com funções executivas, aprendizagem e memória, linguagem, função perceptomotora e cognição social. (Psychiatry Online)
No delirium, a alteração da atenção constitui uma manifestação especialmente importante, frequentemente acompanhada de alterações da consciência e curso flutuante.
Em transtornos neurocognitivos maiores e leves, as alterações atencionais podem aparecer associadas a outros comprometimentos cognitivos.
A atenção pode ser afetada por:
- alterações frontais;
- comprometimento vascular;
- doenças neurodegenerativas;
- alterações subcorticais;
- comprometimento da velocidade de processamento.
Por isso, a avaliação neuropsicológica deve investigar a relação entre atenção, memória, funções executivas e velocidade de processamento.
15. Atenção e transtornos psicóticos
Nos transtornos psicóticos, alterações atencionais podem apresentar características complexas.
A dificuldade pode envolver:
- seleção inadequada;
- dificuldade de filtragem;
- alterações de vigilância;
- hiperfocalização;
- dificuldade de controle voluntário;
- maior interferência de conteúdos internos.
Na esquizofrenia, por exemplo, déficits cognitivos não constituem apenas consequências secundárias dos sintomas psicóticos. A literatura considera as alterações cognitivas parte importante da própria fisiopatologia e do comprometimento funcional.
Nesse sentido, atenção, memória de trabalho e funções executivas podem influenciar diretamente a capacidade do indivíduo de organizar informações e manter comportamentos orientados a objetivos.
16. Atenção, sono e fadiga
Embora não constituam necessariamente transtornos mentais, sono inadequado e fadiga possuem enorme importância na interpretação da atenção.
A privação de sono pode reduzir:
- vigilância;
- atenção sustentada;
- velocidade de processamento;
- controle executivo;
- capacidade de inibir respostas;
- desempenho psicomotor.
Consequentemente, uma pessoa pode apresentar desempenho atencional inferior em determinado momento sem possuir um transtorno primário da atenção.
Esse aspecto é especialmente importante na avaliação clínica.
Uma avaliação realizada após uma noite mal dormida, em contexto de intenso estresse ou sob influência de medicamentos sedativos pode produzir desempenho inferior ao potencial habitual do indivíduo.
17. Atenção e avaliação neuropsicológica
A avaliação da atenção deve ser multidimensional.
A simples aplicação de um teste denominado “teste de atenção” não permite, por si só, estabelecer a natureza do comprometimento.
O profissional deve investigar diferentes componentes, como:
|
Componente |
Questão clínica principal |
|
Atenção seletiva |
O indivíduo consegue filtrar estímulos irrelevantes? |
|
Atenção sustentada |
Consegue manter o desempenho ao longo do tempo? |
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Atenção alternada |
Consegue mudar adequadamente o foco? |
|
Atenção dividida |
Consegue administrar demandas simultâneas? |
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Vigilância |
Mantém prontidão para estímulos relevantes? |
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Controle inibitório |
Consegue impedir respostas inadequadas? |
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Velocidade de processamento |
Processa informações em ritmo adequado? |
|
Memória de trabalho |
Mantém e manipula informações durante a tarefa? |
A interpretação deve considerar ainda:
- idade;
- escolaridade;
- contexto sociocultural;
- condições emocionais;
- sono;
- uso de medicamentos;
- fadiga;
- motivação;
- condições neurológicas;
- presença de outros transtornos.
Esse cuidado é fundamental para evitar falsos positivos.
18. Atenção e testes neuropsicológicos
Diversos instrumentos podem fornecer informações sobre aspectos atencionais.
Entre eles encontram-se paradigmas de:
- cancelamento;
- busca visual;
- span de dígitos;
- atenção sustentada;
- tarefas de desempenho contínuo;
- Stroop;
- Trail Making Test;
- tarefas de atenção dividida;
- tarefas de memória de trabalho;
- paradigmas computadorizados.
O Stroop, por exemplo, não constitui uma medida “pura” de atenção. Seu desempenho envolve controle inibitório, atenção seletiva, velocidade de processamento e funções executivas.
Da mesma maneira, o Trail Making Test não avalia exclusivamente atenção, envolvendo também velocidade visuomotora, flexibilidade cognitiva e alternância.
Esse princípio é essencial: nenhum teste neuropsicológico deve ser interpretado como se medisse exclusivamente uma única função cognitiva sem considerar o modelo teórico e as demandas específicas da tarefa.
19. Alteração quantitativa e alteração qualitativa da atenção
Uma contribuição importante da Psicopatologia consiste em diferenciar alterações quantitativas de alterações qualitativas.
Nas alterações quantitativas, pode ocorrer:
- redução da capacidade atencional;
- aumento ou redução da vigilância;
- lentificação;
- fadigabilidade;
- dificuldade de sustentação.
Nas alterações qualitativas, o problema pode estar na maneira como a atenção é organizada.
Exemplos incluem:
- hiperfocalização;
- hipervigilância;
- viés para ameaça;
- viés para informações negativas;
- captura excessiva por estímulos internos;
- dificuldade de desligamento de determinados conteúdos.
Essa distinção ajuda a compreender por que diferentes transtornos podem produzir a mesma queixa subjetiva de “falta de concentração”, mas por mecanismos diferentes.
20. Atenção como fenômeno transdiagnóstico
Uma das perspectivas mais importantes da Psicopatologia contemporânea consiste em compreender determinadas funções cognitivas como dimensões transdiagnósticas.
A atenção é um excelente exemplo.
Ela aparece alterada em diferentes condições:
- TDAH;
- depressão;
- ansiedade;
- transtorno bipolar;
- esquizofrenia;
- transtornos relacionados ao trauma;
- transtornos neurocognitivos;
- uso de substâncias;
- condições neurológicas.
Isso significa que uma alteração atencional pode atravessar categorias diagnósticas tradicionais.
A mesma dificuldade de concentração pode assumir diferentes significados.
No TDAH, pode refletir um padrão persistente de desatenção e dificuldades de controle.
Na depressão, pode estar associada à ruminação e à lentificação.
Na ansiedade, pode refletir hipervigilância e preocupação.
Na esquizofrenia, pode envolver alterações de seleção e controle.
No transtorno bipolar, pode variar de acordo com o estado de humor.
Nos transtornos neurocognitivos, pode estar relacionada a comprometimentos cerebrais adquiridos.
Portanto, o diagnóstico não deve partir apenas do sintoma, mas de sua estrutura, temporalidade, contexto e relação com os demais sinais clínicos.
21. Implicações para o diagnóstico diferencial
A avaliação da atenção possui grande valor no diagnóstico diferencial.
Considere-se, por exemplo, um adulto que afirma:
“Tenho muita dificuldade para me concentrar.”
Essa informação isolada é insuficiente.
É necessário perguntar:
- Desde quando?
- Desde a infância ou apenas recentemente?
- O problema ocorre em todos os contextos?
- O desempenho melhora quando a atividade é altamente motivadora?
- Há sintomas depressivos?
- Há preocupação excessiva?
- Há alterações do sono?
- Há uso de medicamentos?
- Há consumo de substâncias?
- Existe fadiga?
- Existem alterações de memória?
- Há dificuldades executivas?
- Há flutuações da consciência?
- Existem sintomas psicóticos?
Esse raciocínio demonstra por que a avaliação da atenção não pode ser dissociada da avaliação clínica global.
A atenção é simultaneamente uma função cognitiva e um fenômeno profundamente influenciado pelo estado emocional.
22. Atenção e psicoterapia
A relação entre atenção e psicoterapia também merece consideração.
Diversas abordagens psicoterápicas trabalham direta ou indiretamente com mecanismos atencionais.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, o paciente pode aprender a identificar padrões seletivos de atenção associados a pensamentos automáticos e interpretações disfuncionais.
Na depressão, pode haver intervenção sobre ruminação e processamento seletivo de informações negativas.
Na ansiedade, pode-se trabalhar o monitoramento excessivo de ameaça.
Em transtornos relacionados ao trauma, estratégias terapêuticas podem contribuir para ampliar a flexibilidade atencional e reduzir padrões persistentes de hipervigilância.
Entretanto, intervenções destinadas especificamente à modificação de vieses atencionais ainda apresentam resultados heterogêneos.
Uma metanálise sobre treinamento de modificação do viés atencional para depressão encontrou resultados promissores para sintomas depressivos e ruminação, mas classificou a certeza global das evidências como baixa ou muito baixa, destacando a necessidade de estudos mais rigorosos. (PubMed)
Isso demonstra que a atenção é tanto um alvo potencial de intervenção quanto um importante marcador para acompanhamento clínico.
23. Considerações sobre a natureza dinâmica da atenção
A atenção não deve ser compreendida como uma característica absolutamente fixa do indivíduo.
Seu funcionamento varia de acordo com:
- estado emocional;
- nível de motivação;
- complexidade da tarefa;
- ambiente;
- sono;
- fadiga;
- interesses;
- recompensas;
- expectativas;
- condições clínicas.
Essa característica dinâmica é especialmente relevante para evitar interpretações simplistas.
Um indivíduo pode apresentar desempenho muito baixo em uma tarefa monótona e desempenho excelente em uma atividade altamente motivadora.
Da mesma maneira, um paciente deprimido pode apresentar desempenho próximo da normalidade em uma situação estruturada e dificuldades significativas em atividades cotidianas complexas.
Por isso, o desempenho psicométrico deve ser integrado à história clínica e às observações comportamentais.
24. Discussão
A literatura examinada permite afirmar que a atenção constitui uma função cognitiva essencial e multidimensional.
Sua importância decorre do fato de que praticamente todas as atividades cognitivas complexas dependem de algum grau de seleção, manutenção ou controle atencional.
Entretanto, a concepção de atenção como um fenômeno unitário é insuficiente para explicar sua expressão clínica.
O TDAH demonstra essa complexidade de maneira particularmente clara. Embora a desatenção constitua um componente diagnóstico importante, o transtorno envolve também controle executivo, impulsividade, regulação motivacional e funcionamento adaptativo.
Nos transtornos depressivos, a alteração pode assumir a forma de redução da eficiência cognitiva e de orientação preferencial para informações negativas.
Nos transtornos de ansiedade, pode ocorrer direcionamento aumentado para sinais de ameaça.
No transtorno bipolar, atenção sustentada e velocidade de processamento podem apresentar comprometimento em diferentes fases da doença.
Na esquizofrenia, o comprometimento atencional pode envolver mecanismos de seleção, controle, alerta e hiperfocalização.
Nos transtornos relacionados ao trauma, a hipervigilância pode reorganizar os recursos atencionais em torno da detecção de ameaça.
Nos transtornos neurocognitivos, a atenção pode ser afetada como parte de um processo adquirido de comprometimento cognitivo.
Essas diferenças reforçam a necessidade de uma perspectiva funcional.
Em vez de perguntar apenas “a atenção está alterada?”, a avaliação clínica deveria procurar responder:
Qual componente da atenção está alterado?
Em que circunstâncias?
Desde quando?
Com qual intensidade?
Em associação com quais outros processos cognitivos?
Qual é a relação entre a alteração atencional e o estado emocional?
Qual é o impacto funcional?
Essas perguntas transformam uma queixa inespecífica em uma hipótese neuropsicológica clinicamente útil.
Outro ponto fundamental é que déficits atencionais não devem ser interpretados automaticamente como indicadores de determinado transtorno.
A literatura contemporânea sobre TDAH, ansiedade, depressão e esquizofrenia demonstra que alterações atencionais são compartilhadas entre diferentes condições. Estudos recentes também ressaltam a heterogeneidade dessas alterações, evitando a ideia de que cada diagnóstico apresenta uma assinatura cognitiva absolutamente homogênea. (PubMed)
Nesse sentido, a atenção pode ser considerada um importante marcador transdiagnóstico, mas não necessariamente um marcador diagnóstico específico.
25. Considerações finais
A atenção representa uma das funções cognitivas fundamentais para a organização da experiência humana. Sua função não se limita à capacidade de permanecer concentrado em uma tarefa, mas envolve uma rede complexa de processos relacionados ao alerta, seleção, orientação, manutenção do foco, alternância, distribuição de recursos, controle da interferência e direcionamento do comportamento.
As alterações atencionais estão presentes em diversos transtornos mentais, mas assumem características diferentes em cada condição.
No TDAH, predominam dificuldades relacionadas à manutenção e ao controle do foco, associadas a alterações executivas e motivacionais.
Na depressão, podem ocorrer redução da eficiência cognitiva, lentificação e vieses em direção a informações negativas.
Na ansiedade, destaca-se a tendência de direcionamento da atenção para estímulos relacionados à ameaça, embora a estabilidade individual desse viés seja variável.
No transtorno bipolar, alterações atencionais podem acompanhar tanto episódios agudos quanto persistir em diferentes graus durante períodos de remissão.
Na esquizofrenia, a alteração pode envolver mecanismos complexos de alerta, seleção, controle e direcionamento atencional.
Nos transtornos relacionados ao trauma, a hipervigilância pode reorganizar a atenção em torno da detecção de ameaça.
Nos transtornos neurocognitivos, a atenção pode constituir um dos domínios diretamente afetados pelo processo cerebral adquirido.
Dessa maneira, a avaliação da atenção deve ser realizada de forma multidimensional, evitando a utilização de um único resultado psicométrico como representação global da função.
Para a Psicologia e a Neuropsicologia, essa compreensão possui implicações diretas. A análise adequada da atenção pode contribuir para a formulação de hipóteses diagnósticas, para o diagnóstico diferencial, para a compreensão da dinâmica psicopatológica, para o planejamento da intervenção e para o acompanhamento longitudinal do paciente.
Em última análise, compreender a atenção significa compreender uma das principais interfaces entre cérebro, comportamento e experiência subjetiva.
A atenção seleciona aquilo que será privilegiado pelo sistema cognitivo; aquilo que recebe atenção tende a adquirir maior possibilidade de processamento, aprendizagem e integração com outros conteúdos mentais. Por essa razão, alterações na atenção podem modificar não apenas o desempenho cognitivo, mas também a maneira como o indivíduo percebe, interpreta e responde ao mundo.
A atenção, portanto, não deve ser considerada apenas mais uma função cognitiva a ser medida. Ela constitui um dos mecanismos fundamentais através dos quais a experiência psicológica é organizada.
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Ricardo Santana, Psicólogo, Neuropsicólogo, CRP15 0180, Maceió/AL, WhatsApp: (82)99988-3001
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