DEPRESSÃO E ANSIEDADE SOB A PERSPECTIVA DA NEUROPSICOLOGIA: BASES NEUROCOGNITIVAS, EMOCIONAIS E COMPORTAMENTAIS DOS SINTOMAS

Resumo
A depressão e os transtornos de ansiedade constituem condições psicopatológicas de elevada prevalência, associadas a importante sofrimento subjetivo, prejuízo funcional e redução significativa da qualidade de vida. Embora tradicionalmente descritas a partir de manifestações afetivas, comportamentais e somáticas, evidências provenientes da neuropsicologia, das neurociências cognitivas e da neuroimagem indicam que seus sintomas podem ser compreendidos como expressões de alterações complexas na interação entre sistemas de processamento emocional, atenção, memória, funções executivas, motivação, recompensa, interocepção e regulação autonômica. O presente artigo apresenta uma revisão teórico-conceitual sobre os principais sintomas da depressão e da ansiedade, buscando explicá-los a partir de modelos neuropsicológicos contemporâneos. Na depressão, destacam-se alterações relacionadas à redução da motivação, anedonia, lentificação psicomotora, déficits de atenção e memória, dificuldades executivas, ruminação, vieses cognitivos negativos e alterações na percepção do tempo e do esforço. Na ansiedade, predominam hipervigilância, viés atencional para estímulos ameaçadores, antecipação de eventos negativos, intolerância à incerteza, hiperativação autonômica, alterações interoceptivas e prejuízos secundários na memória de trabalho e no controle executivo. Embora depressão e ansiedade apresentem mecanismos parcialmente distintos, compartilham importantes fatores neurocognitivos, como dificuldades de regulação emocional, alterações nos circuitos frontolímbicos e tendência a padrões cognitivos perseverativos. A compreensão neuropsicológica desses fenômenos permite superar interpretações reducionistas e contribui para avaliações clínicas mais precisas, formulações de caso individualizadas e intervenções psicoterápicas e neuropsicológicas baseadas em evidências.
Palavras-chave: depressão; ansiedade; neuropsicologia; funções executivas; atenção; memória; regulação emocional; cognição.
1. INTRODUÇÃO
A depressão e a ansiedade estão entre os problemas de saúde mental mais relevantes da contemporaneidade. Embora possam ocorrer de maneira independente, frequentemente apresentam elevada comorbidade, compartilhando fatores de risco, mecanismos cognitivos, alterações emocionais e determinados substratos neurobiológicos. A distinção diagnóstica entre essas condições, portanto, não significa que sejam fenômenos completamente independentes. Ao contrário, depressão e ansiedade podem ser compreendidas como manifestações complexas de alterações nos sistemas responsáveis pela regulação da emoção, avaliação de ameaças, motivação, recompensa, controle cognitivo e adaptação comportamental.
Do ponto de vista clínico, a depressão não deve ser reduzida à presença de tristeza. O episódio depressivo envolve uma constelação de manifestações que pode incluir humor deprimido, perda de interesse ou prazer, alterações do sono e do apetite, fadiga, redução da energia, sentimentos de culpa ou inutilidade, dificuldades de concentração e alterações psicomotoras, podendo ocorrer ideação relacionada à morte ou ao suicídio (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022). De maneira semelhante, a ansiedade não corresponde simplesmente a “nervosismo”. A experiência ansiosa envolve sistemas de detecção e antecipação de ameaça que podem produzir alterações cognitivas, emocionais, autonômicas, motoras e comportamentais. A pessoa pode experimentar preocupação persistente, apreensão, hipervigilância, tensão muscular, inquietação, alterações do sono, dificuldades de concentração, sintomas cardiovasculares e respiratórios, além de comportamentos de esquiva.
A neuropsicologia contribui para compreender essas manifestações porque investiga a relação entre funcionamento cerebral, processos cognitivos, emoções e comportamento. Sob essa perspectiva, sintomas aparentemente distintos podem ser relacionados a sistemas funcionais específicos. A dificuldade de concentração, por exemplo, pode resultar de alterações da atenção sustentada, da memória de trabalho, do controle inibitório ou da interferência provocada pela ruminação e pela preocupação. A fadiga pode estar relacionada não apenas à redução da energia física, mas também ao aumento do custo cognitivo necessário para realizar tarefas. A anedonia pode ser compreendida em associação com alterações no processamento da recompensa, motivação e antecipação de experiências prazerosas. A hipervigilância ansiosa, por sua vez, pode ser entendida como uma forma de alocação excessiva de recursos atencionais para sinais potencialmente ameaçadores.
Assim, compreender depressão e ansiedade neuropsicologicamente significa perguntar não apenas quais sintomas estão presentes, mas também quais processos cognitivos e sistemas funcionais podem estar contribuindo para sua manutenção.
2. UMA VISÃO NEUROPSICOLÓGICA DA PSICOPATOLOGIA
A neuropsicologia contemporânea não considera que exista uma correspondência simples entre determinado sintoma e uma única região cerebral. O cérebro funciona por meio de redes distribuídas, dinâmicas e interdependentes. Consequentemente, alterações psicopatológicas complexas tendem a envolver modificações na comunicação entre diferentes sistemas. Essa perspectiva é particularmente importante para a compreensão da depressão e da ansiedade. Não é adequado afirmar, por exemplo, que “a depressão é causada pelo hipocampo” ou que “a ansiedade é causada pela amígdala”. Estruturas como amígdala, hipocampo, córtex pré-frontal, cíngulo anterior, ínsula, estriado e hipotálamo participam de sistemas integrados que regulam emoção, motivação, memória, atenção, aprendizagem e respostas fisiológicas.
Modelos atuais enfatizam a interação entre redes relacionadas ao processamento autorreferencial, saliência, controle executivo e processamento emocional (MENON, 2011). Essa concepção também permite compreender por que indivíduos diagnosticados com o mesmo transtorno podem apresentar perfis neuropsicológicos bastante diferentes. A depressão de uma pessoa pode ser predominantemente caracterizada por anedonia e lentificação psicomotora; outra pode apresentar intensa ruminação e prejuízo executivo; outra pode manifestar sobretudo fadiga, alterações do sono e dificuldades de concentração. Portanto, o diagnóstico categorial não elimina a necessidade de uma compreensão dimensional e funcional dos sintomas.
3. DEPRESSÃO: ALÉM DA TRISTEZA
A depressão é uma síndrome multidimensional. Seus sintomas envolvem pelo menos cinco grandes domínios: afetivo, cognitivo, motivacional, comportamental e somático. O humor deprimido representa apenas uma parte desse fenômeno. Em muitos pacientes, o elemento central pode ser a perda de capacidade de experimentar prazer, a sensação de vazio, a redução da iniciativa ou a percepção de que atividades anteriormente significativas deixaram de produzir recompensa. Do ponto de vista neuropsicológico, isso é particularmente importante porque a depressão afeta processos fundamentais para a adaptação cotidiana: avaliar recompensas, selecionar comportamentos, manter objetivos, monitorar resultados, inibir respostas inadequadas e utilizar experiências passadas para orientar decisões futuras.
4. ANEDONIA E SISTEMA DE RECOMPENSA
A anedonia é um dos sintomas mais característicos da depressão e pode ser definida, de maneira geral, como redução da capacidade de experimentar prazer ou interesse. Entretanto, a anedonia não deve ser entendida apenas como “não sentir prazer”. Pesquisas contemporâneas sugerem que diferentes componentes do processamento de recompensa podem estar alterados. Esses componentes incluem a antecipação da recompensa, a motivação para buscar a recompensa, a experiência efetiva da recompensa e a aprendizagem a partir da recompensa. Um indivíduo deprimido pode, por exemplo, ainda ser capaz de sentir prazer quando uma atividade acontece, mas apresentar enorme dificuldade para antecipar que aquela atividade será prazerosa. Consequentemente, perde a motivação para iniciá-la.
Essa distinção é fundamental. A pessoa pode pensar: “Eu sei que normalmente gosto de encontrar meus amigos, mas não tenho vontade de ir.” Neuropsicologicamente, isso pode representar uma alteração na antecipação e no valor motivacional da recompensa, e não necessariamente uma incapacidade absoluta de experimentar prazer. Alterações nos circuitos envolvendo córtex pré-frontal, estriado ventral e sistemas dopaminérgicos têm sido associadas a alterações no processamento motivacional e de recompensa observadas na depressão (HUSAIN; RUTTER, 2020).
5. FADIGA, LENTIFICAÇÃO E CUSTO COGNITIVO
A fadiga depressiva possui características diferentes do simples cansaço após esforço físico. O indivíduo pode relatar: “Não tenho energia para nada.” Entretanto, em muitos casos, o problema envolve também uma sensação de elevado custo para iniciar e manter comportamentos. Uma tarefa relativamente simples pode ser percebida como excessivamente exigente. Levantar-se, tomar banho, responder mensagens ou organizar documentos pode demandar um esforço subjetivo desproporcional. A neuropsicologia cognitiva pode interpretar esse fenômeno considerando a relação entre motivação, esforço percebido, recompensa esperada e controle executivo.
Quando a recompensa antecipada diminui e o custo subjetivo aumenta, a probabilidade de iniciar uma ação também pode diminuir. Surge, então, um ciclo caracterizado pela redução da recompensa antecipada, seguida de menor motivação, redução da atividade, menor exposição a experiências reforçadoras, aumento do isolamento e manutenção dos sintomas depressivos. Esse modelo dialoga com princípios comportamentais clássicos relacionados à redução de reforçadores ambientais e ajuda a explicar por que a ativação comportamental constitui uma estratégia importante no tratamento da depressão.
6. ALTERAÇÕES DA ATENÇÃO NA DEPRESSÃO
A atenção é frequentemente prejudicada durante episódios depressivos. O paciente pode relatar: “Eu leio e não consigo entender”, “Começo uma coisa e esqueço o que estava fazendo” ou “Minha cabeça não funciona como antes”. Essas queixas podem envolver diferentes componentes atencionais, sendo importante distinguir atenção sustentada, seletiva, dividida e controle atencional.
A depressão pode comprometer especialmente a eficiência do controle cognitivo quando a tarefa exige esforço, flexibilidade ou manipulação ativa de informações. Entretanto, um aspecto particularmente importante é que parte do prejuízo aparentemente “atencional” pode ser consequência da competição entre a tarefa e pensamentos autorreferenciais negativos. O indivíduo não necessariamente perdeu sua capacidade básica de perceber estímulos. Seus recursos cognitivos podem estar sendo continuamente ocupados por pensamentos como “Eu fracassei”, “Nada vai dar certo”, “Eu deveria ter feito diferente” ou “Minha vida não vai melhorar”. Consequentemente, a disponibilidade de recursos para a tarefa diminui. Essa distinção é essencial em uma avaliação neuropsicológica.
7. RUMINAÇÃO E CAPTURA DA ATENÇÃO
A ruminação constitui um dos fenômenos cognitivos mais relevantes da depressão. Ela pode ser definida como uma tendência a manter pensamentos repetitivos e autorreferenciais relacionados a estados negativos, suas causas e consequências. A pessoa retorna continuamente ao mesmo conteúdo, perguntando-se por que determinada situação aconteceu, por que fez determinada coisa, o que haveria de errado consigo mesma ou por que sua vida chegou a determinado ponto.
O problema não está simplesmente em pensar sobre problemas. A reflexão pode ser adaptativa quando conduz à resolução de problemas. A ruminação, entretanto, tende a apresentar caráter repetitivo, abstrato e pouco produtivo. Do ponto de vista neuropsicológico, a ruminação pode competir com processos de controle executivo e atenção dirigida a objetivos. Modelos contemporâneos associam esse fenômeno à interação entre redes envolvidas no processamento autorreferencial e sistemas de controle cognitivo (MENON, 2011).
8. MEMÓRIA E DEPRESSÃO
As alterações de memória constituem uma queixa frequente em pessoas deprimidas. Entretanto, é importante distinguir entre codificação, armazenamento, consolidação, recuperação, memória de trabalho e memória autobiográfica. Em muitos pacientes deprimidos, o problema não corresponde necessariamente a uma falha estrutural de armazenamento. Pode existir dificuldade de codificar adequadamente a informação porque a atenção está comprometida ou porque recursos cognitivos estão ocupados por pensamentos negativos.
Além disso, a depressão pode produzir um viés na memória autobiográfica. O indivíduo pode recordar com maior facilidade experiências negativas e apresentar dificuldade para acessar memórias positivas específicas. Esse fenômeno é conhecido como memória autobiográfica supergeneralizada e pode contribuir para a manutenção do estado depressivo. Em vez de recuperar “Naquela ocasião específica, eu consegui resolver aquele problema”, o indivíduo pode recuperar “Eu nunca consigo resolver nada”. O primeiro é uma memória episódica específica. O segundo constitui uma generalização abstrata. Essa diferença possui grande importância psicoterapêutica porque a capacidade de recuperar experiências específicas de enfrentamento pode contribuir para a construção de expectativas futuras mais realistas.
9. FUNÇÕES EXECUTIVAS NA DEPRESSÃO
As funções executivas correspondem a um conjunto de processos responsáveis pela coordenação do comportamento orientado a objetivos. Entre esses processos estão planejamento, monitoramento, flexibilidade cognitiva, inibição, atualização da memória de trabalho, tomada de decisão e resolução de problemas. Alterações executivas são frequentemente observadas na depressão, embora sua intensidade varie consideravelmente.
O paciente pode apresentar dificuldade para iniciar tarefas, organizar atividades, estabelecer prioridades, mudar de estratégia, manter objetivos e solucionar problemas, além de apresentar dificuldade para controlar pensamentos intrusivos. A literatura neuropsicológica indica que déficits executivos podem persistir em determinados pacientes mesmo após melhora significativa do humor, constituindo potencial fator de vulnerabilidade para recaídas e prejuízo funcional (ROCK et al., 2014). Esse aspecto é particularmente importante porque demonstra que a remissão sintomática não deve ser confundida automaticamente com recuperação funcional completa.
10. TOMADA DE DECISÃO E DEPRESSÃO
A tomada de decisão depende da capacidade de integrar informações sobre recompensas, riscos, experiências anteriores e consequências futuras. Na depressão, esse sistema pode sofrer alterações. O indivíduo pode apresentar pessimismo, maior valorização de perdas, menor expectativa de recompensa, dificuldade de imaginar resultados positivos e maior peso atribuído a consequências negativas. Consequentemente, decisões que objetivamente poderiam ser consideradas razoáveis podem parecer inviáveis.
Essa alteração pode contribuir para comportamentos de desistência e passividade. O problema, portanto, não é necessariamente “falta de vontade”. Em determinados casos, a pessoa pode apresentar uma alteração na avaliação subjetiva do valor da ação.
11. CULPA, AUTOCRÍTICA E PROCESSAMENTO AUTORREFERENCIAL
A culpa constitui outro fenômeno importante da depressão. Existe diferença entre culpa adaptativa e culpa patológica. A culpa adaptativa pode estimular reparação, como quando o indivíduo reconhece que fez algo errado e precisa corrigir. Na depressão, porém, a culpa pode adquirir características globais, levando a pensamentos como “Eu sou uma pessoa ruim”, “Eu estrago tudo” ou “Minha existência prejudica os outros”.
O erro deixa de ser atribuído a um comportamento específico e passa a ser incorporado à identidade. Do ponto de vista cognitivo, ocorre uma ampliação da atribuição negativa. A neuropsicologia pode contribuir para identificar como processos de autorreferência, memória autobiográfica, atenção seletiva e controle executivo participam desse padrão.
12. ANSIEDADE: O CÉREBRO EM ESTADO DE AMEAÇA
A ansiedade apresenta uma organização neuropsicológica distinta, embora parcialmente sobreposta à depressão. Sua característica central é a percepção de ameaça potencial. A ameaça pode ser imediata, futura, concreta, social, corporal, imaginada ou incerta. O cérebro não precisa receber um perigo objetivo para produzir uma resposta ansiosa. A antecipação de uma possibilidade pode ser suficiente.
Essa característica explica por que uma pessoa pode apresentar intensa ativação fisiológica diante de um evento que ainda não aconteceu.
13. MEDO E ANSIEDADE
É útil distinguir medo e ansiedade. O medo está frequentemente associado a uma ameaça mais imediata e identificável. A ansiedade, por outro lado, envolve frequentemente antecipação, incerteza e possibilidade. O medo responde à percepção de que existe um perigo presente, enquanto a ansiedade pergunta continuamente se determinado perigo poderá ocorrer.
Essa diferença tem importantes implicações neuropsicológicas. O sistema ansioso pode permanecer ativo durante longos períodos porque não existe um ponto claro de encerramento. Enquanto o medo pode diminuir depois que a ameaça desaparece, a ansiedade antecipatória pode continuar indefinidamente porque novas possibilidades ameaçadoras podem ser produzidas mentalmente.
14. HIPERVIGILÂNCIA E ATENÇÃO À AMEAÇA
Um dos fenômenos mais característicos da ansiedade é a hipervigilância. O indivíduo passa a monitorar continuamente o ambiente em busca de sinais potencialmente ameaçadores. Uma expressão facial pode ser interpretada como desaprovação, uma mensagem não respondida pode ser interpretada como rejeição, uma sensação corporal pode ser interpretada como sinal de doença e um pequeno erro pode ser interpretado como evidência de fracasso. Essa tendência está relacionada ao processamento enviesado de ameaça.
Estudos cognitivos demonstram que indivíduos ansiosos podem apresentar maior facilidade para detectar ou interpretar estímulos relacionados a ameaça, embora a natureza e a magnitude desses vieses variem conforme o transtorno e o contexto (BAR-HAIM et al., 2007).
15. A AMÍGDALA E O PROCESSAMENTO EMOCIONAL
A amígdala possui papel importante na detecção e avaliação de estímulos emocionalmente relevantes. Porém, é incorreto considerá-la simplesmente como o “centro do medo”. A amígdala participa de processos de aprendizagem emocional, detecção de relevância e modulação de respostas comportamentais e autonômicas.
Na ansiedade, alterações na responsividade de circuitos relacionados à ameaça podem contribuir para uma interpretação exagerada de estímulos ambíguos ou potencialmente perigosos. Ao mesmo tempo, regiões pré-frontais participam da avaliação contextual e da regulação dessas respostas. A ansiedade pode, portanto, ser compreendida parcialmente como um desequilíbrio entre sistemas de detecção de ameaça e sistemas responsáveis por avaliação, contextualização e controle.
16. ÍNSULA E INTEROCEPÇÃO
A ínsula possui papel importante na representação das condições internas do organismo. Esse processo é denominado interocepção. A pessoa percebe batimentos cardíacos, respiração, temperatura, tensão muscular, desconforto gastrointestinal, tontura e diversas outras sensações corporais.
Na ansiedade, a atenção excessiva a essas sensações pode produzir um ciclo de amplificação. Uma sensação corporal pode desencadear atenção intensa, seguida de interpretação ameaçadora, aumento da ansiedade e intensificação da própria sensação corporal, produzindo, por sua vez, atenção ainda maior. Esse ciclo é particularmente importante nos ataques de pânico. A sensação inicial pode ser relativamente pequena, mas sua interpretação catastrófica aumenta a ativação autonômica, que por sua vez produz mais sensações corporais.
17. ANSIEDADE E SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO
A ansiedade também apresenta importante dimensão fisiológica. A ativação autonômica pode produzir taquicardia, sudorese, tremores, tensão muscular, alterações respiratórias, desconforto gastrointestinal, sensação de calor ou frio, tontura e sensação de falta de ar. Essas respostas fazem parte dos sistemas fisiológicos relacionados à preparação para ação.
O problema ocorre quando esse sistema é ativado de maneira excessiva, prolongada ou desproporcional ao contexto. O indivíduo pode permanecer em um estado de preparação para uma ameaça que nunca se concretiza.
18. PREOCUPAÇÃO COMO FENÔMENO COGNITIVO
A preocupação é um dos principais fenômenos cognitivos associados à ansiedade. Ela consiste em uma cadeia de pensamentos predominantemente verbais e orientados para o futuro, marcada por perguntas recorrentes sobre a possibilidade de que algo dê errado. O indivíduo pode pensar continuamente se determinado evento acontecerá, se conseguirá lidar com ele ou se alguma coisa ruim poderá ocorrer.
A preocupação apresenta uma característica paradoxal: embora seja desagradável, pode produzir uma sensação subjetiva de preparação e controle. A pessoa pode acreditar que preocupar-se constantemente aumenta suas chances de evitar problemas. Porém, a preocupação excessiva consome recursos cognitivos.
19. MEMÓRIA DE TRABALHO E ANSIEDADE
A memória de trabalho é responsável pela manutenção e manipulação temporária de informações necessárias para a realização de tarefas complexas. A ansiedade pode reduzir a eficiência desse sistema porque pensamentos relacionados à ameaça competem pelos mesmos recursos cognitivos.
Imagine uma pessoa realizando uma atividade profissional enquanto pensa continuamente: “E se eu errar?”, “Será que estão percebendo meu erro?”, “E se eu for criticado?” ou “E se eu perder meu emprego?”. Parte dos recursos cognitivos que deveriam estar disponíveis para a tarefa é ocupada pela preocupação. Assim, a pessoa pode apresentar desempenho inferior não porque tenha perdido sua capacidade intelectual, mas porque sua capacidade cognitiva está sendo desviada para o monitoramento de ameaça.
20. ANSIEDADE E CONTROLE INIBITÓRIO
O controle inibitório permite suprimir respostas inadequadas, interromper pensamentos e resistir a estímulos distratores. Na ansiedade, pensamentos ameaçadores podem tornar-se particularmente difíceis de inibir. O indivíduo sabe racionalmente que não existe evidência de que determinada situação vá acontecer, mas continua pensando: “E se acontecer?”.
Esse fenômeno ilustra a diferença entre conhecimento racional e controle emocional. Saber cognitivamente que determinado perigo é improvável não significa necessariamente conseguir interromper a resposta emocional associada à possibilidade desse perigo.
21. FLEXIBILIDADE COGNITIVA
A flexibilidade cognitiva permite mudar de perspectiva, estratégia ou interpretação. A ansiedade frequentemente favorece rigidez cognitiva em torno da ameaça. O indivíduo pode ficar preso a uma única possibilidade, como “vai dar errado”, “ele está bravo comigo” ou “alguma coisa ruim vai acontecer”.
Essa dificuldade de gerar interpretações alternativas pode contribuir para a manutenção da ansiedade. Na depressão, algo semelhante pode ocorrer, porém geralmente em torno de conteúdos de fracasso, perda, culpa ou desvalor.
22. DEPRESSÃO E ANSIEDADE: O PAPEL DA ATENÇÃO
A atenção constitui um dos principais pontos de convergência entre depressão e ansiedade. Na ansiedade, a atenção tende a ser capturada por sinais de ameaça. Na depressão, pode ser capturada por informações relacionadas a perda, fracasso, culpa ou desvalor. Dessa maneira, pode-se representar esquematicamente que a ansiedade tende a produzir atenção orientada para ameaça, enquanto a depressão tende a produzir atenção orientada para perda, fracasso e desvalor. Quando depressão e ansiedade coexistem, a carga cognitiva pode tornar-se particularmente elevada, reunindo ameaça, perda e autodepreciação em um mesmo sistema psicológico.
23. O CICLO COGNITIVO DA DEPRESSÃO
Um modelo simplificado da depressão pode ser representado pela sequência entre evento, interpretação negativa, emoção negativa, redução da motivação, esquiva ou inatividade, menor exposição a reforçadores e confirmação das crenças negativas. Um indivíduo pode, por exemplo, perceber que um amigo não respondeu a uma mensagem e interpretar esse acontecimento como evidência de que o amigo não gosta mais dele. A interpretação de rejeição produz tristeza, que reduz a disposição para sair e interagir. O isolamento diminui ainda mais as experiências positivas e pode levar à conclusão de que sua vida está cada vez pior. O ciclo pode, assim, tornar-se autorreforçador.
24. O CICLO COGNITIVO DA ANSIEDADE
Na ansiedade, o ciclo pode ser descrito pela sequência entre situação ambígua, interpretação de ameaça, ativação fisiológica, atenção às sensações, interpretação catastrófica e aumento da ativação, seguido de esquiva ou comportamento de segurança. Uma pessoa que precisa realizar uma apresentação pode pensar que esquecerá tudo, perceber o coração acelerado, interpretar essa alteração como sinal de que não conseguirá realizar a tarefa e decidir evitá-la. O alívio imediato produzido pela esquiva pode reforçar o comportamento, aumentando a probabilidade de que seja repetido e fazendo com que a pessoa conclua que a apresentação realmente era perigosa.
25. COMORBIDADE ENTRE DEPRESSÃO E ANSIEDADE
A coexistência entre depressão e ansiedade é extremamente relevante. A ansiedade pode preceder a depressão ou surgir posteriormente. Uma pessoa inicialmente ansiosa pode passar anos evitando situações, restringindo atividades e experimentando preocupação persistente. Com o tempo, a redução de experiências positivas, o isolamento e a percepção de incapacidade podem contribuir para sintomas depressivos.
Da mesma forma, uma pessoa deprimida pode desenvolver ansiedade diante da percepção de perda de controle sobre sua vida. A combinação pode produzir maior gravidade sintomática, maior prejuízo funcional, maior dificuldade de recuperação, maior ruminação, maior preocupação e maior fadiga cognitiva. Por isso, uma avaliação clínica exclusivamente centrada no humor pode deixar de identificar componentes ansiosos relevantes.
26. REDES CEREBRAIS ENVOLVIDAS
A compreensão contemporânea da depressão e da ansiedade favorece modelos baseados em redes neurais. Entre os sistemas frequentemente discutidos encontram-se a rede de modo padrão, a rede de saliência, a rede de controle executivo e os circuitos frontolímbicos.
A rede de modo padrão está relacionada ao processamento autorreferencial, à memória autobiográfica e ao pensamento interno. Sua participação é particularmente relevante para compreender ruminação e processamento autorreferencial na depressão. A rede de saliência está relacionada à identificação de estímulos relevantes e à alternância entre processamento interno e externo. Alterações nesse sistema podem contribuir para a atribuição excessiva de relevância a estímulos ameaçadores ou estados internos. A rede de controle executivo envolve regiões pré-frontais e parietais relacionadas à manutenção de objetivos, controle atencional e resolução de problemas. Sua interação inadequada com sistemas emocionais pode contribuir para dificuldades de regulação cognitiva. Os circuitos frontolímbicos, por sua vez, estabelecem comunicação entre regiões pré-frontais e estruturas límbicas, constituindo importante componente da regulação emocional. Alterações nesses circuitos aparecem em diversos modelos neurobiológicos de depressão e ansiedade.
27. CÓRTEX PRÉ-FRONTAL E REGULAÇÃO EMOCIONAL
O córtex pré-frontal desempenha papel importante na organização de comportamentos orientados a objetivos, avaliação de consequências e regulação emocional. Isso não significa que o córtex pré-frontal simplesmente “controle” as emoções. A regulação emocional emerge da interação entre diferentes sistemas.
Em situações normais, uma pessoa pode experimentar medo e simultaneamente avaliar que existe perigo, mas que pode lidar com ele. Em estados ansiosos intensos, a capacidade de contextualizar e reinterpretar a ameaça pode ficar prejudicada. Na depressão, por outro lado, o sistema executivo pode ser utilizado para alimentar avaliações negativas repetitivas. Assim, o mesmo sistema cognitivo que normalmente permitiria planejamento e resolução de problemas pode ser mobilizado para ruminação.
28. NEUROPLASTICIDADE
A neuroplasticidade é fundamental para compreender tanto a vulnerabilidade quanto a recuperação. O cérebro modifica sua organização funcional em resposta à experiência, aprendizagem, estresse e comportamento. Estresse crônico, privação de sono, isolamento social e estados emocionais persistentes podem influenciar negativamente diversos sistemas cognitivos e emocionais.
Por outro lado, psicoterapia, exercício físico, aprendizagem, sono adequado, reorganização comportamental e outras intervenções podem produzir mudanças funcionais relevantes. A neuroplasticidade, portanto, fornece uma ponte conceitual entre neurobiologia e psicoterapia. Pensamentos e comportamentos repetidos não são meramente conteúdos abstratos; eles participam de padrões de atividade neural que podem ser modificados pela experiência.
29. SONO, DEPRESSÃO E ANSIEDADE
O sono ocupa posição central nessa relação. A depressão pode produzir insônia, despertar precoce, sono não reparador e hipersonia. A ansiedade pode produzir dificuldade de iniciar ou manter o sono devido à hiperativação cognitiva.
O indivíduo pode deitar-se fisicamente cansado, mas permanecer mentalmente ativo, pensando que precisa dormir, que deve acordar cedo, que talvez não consiga dormir ou que poderá estar cansado no dia seguinte. A própria preocupação com o sono pode aumentar a ativação e dificultar ainda mais o adormecimento. Forma-se novamente um ciclo no qual a preocupação aumenta a ativação, a ativação prejudica o sono e a privação de sono aumenta a vulnerabilidade à ansiedade e à depressão.
30. O PAPEL DA MOTIVAÇÃO
A motivação é um processo neuropsicológico complexo que envolve avaliação de objetivos, recompensa, esforço, expectativa e ação. Na depressão, a diminuição da motivação pode ser confundida com preguiça. Essa interpretação é inadequada. A pessoa deprimida pode desejar realizar uma atividade, reconhecer sua importância e, mesmo assim, não conseguir mobilizar recursos suficientes para iniciá-la.
Essa diferença entre querer e conseguir iniciar é fundamental. O fenômeno pode ser especialmente evidente em tarefas que exigem planejamento e esforço prolongado.
31. PROCESSAMENTO DO TEMPO
A depressão pode alterar a experiência subjetiva do tempo. O tempo pode parecer lento, vazio ou excessivamente prolongado. A ansiedade pode produzir a experiência oposta em determinadas situações, com sensação de aceleração, urgência e antecipação. Essas experiências podem ser relacionadas ao estado emocional, ao nível de ativação fisiológica, à atenção e ao processamento temporal. O tempo psicológico, portanto, não corresponde simplesmente ao tempo cronológico.
32. VELOCIDADE DE PROCESSAMENTO
A lentificação psicomotora e cognitiva é particularmente importante na depressão. O indivíduo pode responder mais lentamente, apresentar menor espontaneidade e necessitar de mais tempo para organizar respostas. Entretanto, a lentificação não ocorre necessariamente em todos os pacientes. Sua presença pode depender da gravidade do episódio, idade, duração da doença, medicamentos, qualidade do sono, comorbidades e características individuais.
Por isso, a avaliação neuropsicológica deve considerar o contexto clínico antes de interpretar um desempenho reduzido como déficit neurocognitivo primário.
33. AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
A avaliação neuropsicológica pode contribuir significativamente para compreender depressão e ansiedade, desde que seus resultados sejam interpretados dentro de uma formulação clínica ampla. Não se deve utilizar um teste isolado para “diagnosticar depressão” ou “diagnosticar ansiedade”. A avaliação deve integrar entrevista clínica, história do desenvolvimento, funcionamento atual, sintomas, observação comportamental, instrumentos psicométricos, avaliação cognitiva quando indicada, contexto sociocultural, funcionamento ocupacional, sono, uso de medicamentos, condições médicas e fatores psicossociais.
A avaliação cognitiva pode investigar atenção, incluindo atenção sustentada, seletiva, alternada e dividida; memória, incluindo memória episódica, memória de trabalho e aprendizagem; funções executivas, incluindo flexibilidade, inibição, planejamento, monitoramento e resolução de problemas; e velocidade de processamento, relacionada à rapidez e eficiência do processamento cognitivo. A linguagem, incluindo fluência e acesso lexical, também pode ser investigada quando clinicamente pertinente.
34. CUIDADOS NA INTERPRETAÇÃO DOS TESTES
Um dos maiores riscos na avaliação de pacientes deprimidos e ansiosos é interpretar qualquer desempenho baixo como evidência de lesão ou disfunção cerebral estrutural. A performance cognitiva é influenciada por múltiplos fatores. Ansiedade durante o teste pode prejudicar a concentração. Depressão pode reduzir velocidade e motivação. Privação de sono pode comprometer atenção e memória. Medicamentos podem alterar velocidade psicomotora ou vigilância. Dor pode consumir recursos atencionais.
Portanto, um desempenho inferior deve ser interpretado em relação ao conjunto de dados. A neuropsicologia clínica não consiste apenas em identificar pontuações baixas, mas em compreender o padrão de desempenho e sua relação com o funcionamento cotidiano.
35. DIFERENCIANDO DÉFICIT COGNITIVO DE INTERFERÊNCIA EMOCIONAL
Essa diferenciação é particularmente importante. Imagine dois indivíduos que obtêm desempenho semelhante em uma tarefa de memória. O primeiro apresenta dificuldade porque não consegue armazenar adequadamente novas informações. O segundo apresenta dificuldade porque sua atenção foi constantemente desviada por pensamentos ansiosos. O resultado quantitativo pode ser semelhante, mas os mecanismos são diferentes.
A análise qualitativa do comportamento durante a avaliação pode ajudar a diferenciá-los. É importante verificar se a pessoa compreendeu a tarefa, manteve atenção, demonstrou ansiedade, precisou de repetição, utilizou estratégias, apresentou aprendizagem ao longo das tentativas, recuperou a informação com pistas, cometeu erros por impulsividade ou apresentou melhora quando a ansiedade diminuiu. Essas informações são essenciais para uma interpretação neuropsicológica válida.
36. NEUROPSICOLOGIA E PSICOTERAPIA
A compreensão neuropsicológica não substitui a psicoterapia. Ao contrário, pode contribuir para torná-la mais individualizada. Um paciente cuja principal dificuldade é ruminação pode necessitar de estratégias diferentes daquele cujo principal problema é déficit de iniciação comportamental. Da mesma forma, um paciente ansioso com intensa hipervigilância interoceptiva pode necessitar de intervenção diferente daquele cuja ansiedade é predominantemente social.
A formulação neuropsicológica permite identificar processos que sustentam o sofrimento e, a partir disso, estabelecer intervenções mais precisamente relacionadas às características funcionais de cada indivíduo.
37. TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) apresenta especial compatibilidade com essa compreensão porque trabalha diretamente com relações entre cognição, emoção e comportamento. Na depressão, estratégias como ativação comportamental, reestruturação cognitiva, treinamento de resolução de problemas, planejamento, monitoramento de atividades e prevenção de recaídas podem atuar sobre processos diretamente relacionados ao funcionamento neurocognitivo.
Na ansiedade, intervenções como exposição, reestruturação cognitiva, treinamento de tolerância à incerteza, redução de comportamentos de segurança e técnicas de regulação emocional podem modificar padrões de processamento relacionados à ameaça.
38. A IMPORTÂNCIA DA REGULAÇÃO EMOCIONAL
Regulação emocional não significa eliminar emoções. Uma pessoa emocionalmente saudável não é aquela que nunca sente medo, tristeza ou raiva. É aquela que consegue modular essas emoções de maneira relativamente flexível e funcional. Na depressão, pode ocorrer dificuldade de sair de estados negativos. Na ansiedade, pode ocorrer dificuldade de reduzir a ativação relacionada à ameaça. Em ambos os casos, estratégias de regulação emocional constituem importante componente terapêutico.
39. DEPRESSÃO, ANSIEDADE E METACOGNIÇÃO
A metacognição corresponde, em sentido amplo, à capacidade de refletir sobre os próprios processos cognitivos. Uma pessoa pode perceber: “Estou tendo um pensamento de que vai dar errado.” Isso é diferente de afirmar internamente: “Vai dar errado.” Na primeira situação, existe certo distanciamento metacognitivo. Na segunda, o pensamento é experimentado como realidade.
Essa diferença pode ser fundamental na psicoterapia. O desenvolvimento de uma postura metacognitiva pode permitir que o indivíduo observe pensamentos sem necessariamente tratá-los como fatos.
40. UM MODELO INTEGRATIVO
A partir das evidências discutidas, pode-se propor um modelo neuropsicológico integrado no qual vulnerabilidades individuais interagem com alterações na regulação emocional e no processamento de recompensa e ameaça, produzindo vieses atencionais e cognitivos que favorecem ruminação e/ou preocupação. Esses processos podem levar a alterações na memória de trabalho e no controle executivo, que, por sua vez, influenciam mudanças comportamentais. Na depressão, essas mudanças podem reduzir a exposição a reforçadores; na ansiedade, podem aumentar esquiva e comportamentos de segurança. Essas alterações repercutem no funcionamento social, ocupacional e familiar e podem retroalimentar os sintomas.
Assim, a sequência pode ser compreendida como uma interação entre vulnerabilidades individuais, alterações na regulação emocional e no processamento de recompensa ou ameaça, vieses atencionais e cognitivos, ruminação e preocupação, alterações na memória de trabalho e controle executivo, mudanças comportamentais, redução de reforçadores ou aumento de esquiva, alterações no funcionamento social, ocupacional e familiar e, finalmente, retroalimentação dos sintomas. Esse modelo enfatiza que depressão e ansiedade não devem ser explicadas por uma única causa. São fenômenos emergentes de interações entre fatores biológicos, psicológicos, cognitivos, comportamentais e ambientais.
41. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A neuropsicologia oferece uma contribuição fundamental para a compreensão da depressão e da ansiedade porque permite ultrapassar uma descrição meramente sintomatológica e investigar os processos cognitivos e emocionais que sustentam essas condições. Na depressão, sintomas como tristeza, anedonia, fadiga, lentificação, dificuldade de concentração, esquecimento, culpa e desesperança podem ser compreendidos em associação com alterações no processamento de recompensa, motivação, atenção, memória autobiográfica, funções executivas e regulação emocional. Na ansiedade, hipervigilância, preocupação, tensão, sintomas autonômicos, dificuldade de concentração e antecipação catastrófica podem ser relacionados à hiperatividade de sistemas de detecção de ameaça, alterações na atenção, processamento interoceptivo, memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva.
A convergência entre depressão e ansiedade torna evidente que os transtornos mentais não podem ser compreendidos adequadamente por modelos exclusivamente biológicos ou exclusivamente psicológicos. A atividade cerebral é modificada pela experiência, e a experiência é, por sua vez, influenciada pelo funcionamento cerebral. Pensamentos, emoções, comportamentos, relações sociais, sono, estresse e aprendizagem participam continuamente de processos de neuroplasticidade.
Consequentemente, a neuropsicologia contemporânea deve evitar tanto o reducionismo biológico quanto o reducionismo psicológico. A compreensão mais adequada emerge de uma perspectiva integrativa, na qual sintomas são considerados manifestações de sistemas funcionais complexos. Nesse sentido, a avaliação neuropsicológica não deve limitar-se à identificação de déficits. Seu objetivo mais amplo é compreender como a pessoa percebe, seleciona, processa, armazena e utiliza informações, como regula suas emoções, como toma decisões e como transforma esses processos em comportamento.
A depressão e a ansiedade podem, assim, ser compreendidas como alterações multidimensionais que reorganizam temporariamente — e, em alguns casos, de maneira persistente — a relação do indivíduo consigo mesmo, com o ambiente, com o futuro e com as possibilidades de ação. A compreensão desses mecanismos permite uma abordagem clínica mais precisa e individualizada. Mais do que perguntar simplesmente “qual transtorno o paciente apresenta?”, torna-se necessário perguntar quais processos cognitivos, emocionais, comportamentais e neurofuncionais estão sustentando o sofrimento dessa pessoa.
É justamente nesse ponto que a neuropsicologia encontra sua maior contribuição para a psicopatologia: transformar a descrição dos sintomas em uma compreensão funcional do indivíduo. A depressão deixa, portanto, de ser compreendida apenas como tristeza patológica, e a ansiedade deixa de ser entendida simplesmente como excesso de preocupação. Ambas podem ser analisadas como fenômenos complexos nos quais sistemas de atenção, memória, motivação, recompensa, ameaça, interocepção, funções executivas e regulação emocional interagem continuamente. Essa perspectiva favorece uma compreensão mais sofisticada do sofrimento psíquico e possibilita que a avaliação e a intervenção sejam orientadas não apenas pelo diagnóstico, mas pela identificação dos mecanismos que efetivamente mantêm os sintomas e interferem na vida cotidiana.
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Ricardo Santana, Psicólogo, Neuropsicólogo, CRP15 0180, WhatsApp: (82)99988-3001, Maceió/AL
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