O SUSPIRO ENTRE O CORPO E A MENTE: FUNDAMENTOS NEUROPSICOFISIOLÓGICOS DA REGULAÇÃO RESPIRATÓRIA, INTEROCEPÇÃO E EMOÇÃO


O SUSPIRO ENTRE O CORPO E A MENTE: FUNDAMENTOS NEUROPSICOFISIOLÓGICOS DA REGULAÇÃO RESPIRATÓRIA, INTEROCEPÇÃO E EMOÇÃO

RESUMO

O suspiro fisiológico constitui uma alteração característica do padrão respiratório que ocorre espontaneamente em seres humanos e outros mamíferos. Embora frequentemente associado a estados emocionais como tristeza, alívio, frustração ou fadiga, evidências contemporâneas indicam que o suspiro possui funções homeostáticas, pulmonares e neurobiológicas que transcendem sua expressão emocional. Estudos experimentais demonstraram a participação de circuitos específicos do tronco encefálico na geração do suspiro, enquanto pesquisas recentes indicam que suspiros espontâneos e induzidos interferem na organização do surfactante pulmonar e na mecânica da interface alvéolo-ar. Paralelamente, estudos psicofisiológicos passaram a investigar se a indução voluntária de padrões respiratórios semelhantes ao suspiro, particularmente o cyclic sighing, caracterizado por uma inspiração, uma segunda inspiração suplementar e uma expiração prolongada, poderia produzir modificações mensuráveis no estado psicofisiológico. O presente artigo propõe uma revisão crítica e integrativa da literatura, articulando mecanismos pulmonares, quimiorrespiratórios, autonômicos, interoceptivos, cognitivos e emocionais. São examinadas evidências experimentais sobre cyclic sighing, breathwork e respiração controlada, bem como suas limitações metodológicas. Discute-se ainda, de forma epistemologicamente delimitada, a possibilidade de diálogo entre a concepção freudiana de redução de tensão e os modelos contemporâneos de regulação psicofisiológica. Propõe-se um modelo biopsicofisiológico no qual o suspiro pode ser compreendido como uma interface entre homeostase corporal, processamento interoceptivo e autorregulação emocional. Conclui-se que existem evidências promissoras para o emprego do cyclic sighing como estratégia complementar de regulação psicofisiológica, mas ainda não existem evidências suficientes para classificá-lo como tratamento específico de transtornos mentais. Nesse sentido, o fenômeno deve ser compreendido simultaneamente como uma função respiratória biologicamente organizada, como um processo capaz de modificar informações interoceptivas e como uma possível ferramenta de autorregulação, cuja utilização clínica exige avaliação individualizada e monitoramento dos resultados.

Palavras-chave: suspiro fisiológico; cyclic sighing; respiração; interocepção; regulação emocional; psicofisiologia; sistema nervoso autônomo; neurociência; ansiedade; breathwork.

O suspiro constitui um dos fenômenos corporais que melhor ilustram a complexa relação existente entre organismo e experiência subjetiva. O ser humano suspira quando está cansado, aliviado, frustrado, triste, ansioso ou, aparentemente, sem qualquer razão emocional conscientemente identificável. Essa característica confere ao fenômeno uma natureza aparentemente paradoxal, uma vez que ele é simultaneamente fisiológico e psicológico. Essa dupla natureza transforma o suspiro em um objeto privilegiado para uma ciência que pretenda superar a antiga dicotomia entre mente e corpo. A literatura contemporânea mostra que o suspiro integra a própria fisiologia respiratória. Estudos neurobiológicos identificaram circuitos específicos capazes de transformar respirações ordinárias em suspiros, enquanto pesquisas sobre fisiologia pulmonar demonstram que essas alterações respiratórias participam da manutenção da mecânica pulmonar. Paralelamente, pesquisas em Psicologia e Medicina comportamental começaram a investigar se a produção voluntária de padrões respiratórios semelhantes ao suspiro poderia ser utilizada para modificar estados de estresse e ativação fisiológica. Essa segunda linha de investigação ganhou notoriedade principalmente após o estudo de Balban et al. (2023), no qual cinco minutos diários de diferentes técnicas respiratórias foram comparados com mindfulness durante aproximadamente um mês. O cyclic sighing, caracterizado por uma segunda inspiração seguida de expiração prolongada, apresentou resultados particularmente favoráveis em humor e frequência respiratória. Entretanto, uma ciência rigorosa precisa evitar um salto lógico fundamental: o fato de o suspiro possuir funções fisiológicas não demonstra automaticamente que produzi-lo voluntariamente constitua tratamento para transtornos psicológicos. Essa distinção constitui um dos princípios centrais para a interpretação adequada das evidências disponíveis.

O interesse contemporâneo pelo physiological sigh ocorre em um momento de enorme expansão da chamada breathwork. Entretanto, o termo breathwork engloba técnicas muito diferentes, incluindo respiração lenta, respiração coerente, respiração diafragmática, respiração alternada, box breathing, hiperventilação, retenção respiratória e cyclic sighing. Essas técnicas não são fisiologicamente equivalentes e, consequentemente, resultados obtidos com respiração lenta não podem simplesmente ser atribuídos ao suspiro. Da mesma forma, resultados provenientes de estudos sobre cyclic sighing não devem ser generalizados para qualquer forma de respiração profunda. Essa diferenciação é fundamental para impedir que a divulgação popular ultrapasse aquilo que efetivamente pode ser sustentado pela evidência científica. O presente trabalho tem, portanto, cinco objetivos fundamentais: examinar os mecanismos fisiológicos e neurobiológicos do suspiro; discutir sua relação com emoção, interocepção e regulação autonômica; analisar criticamente as evidências disponíveis sobre cyclic sighing; estabelecer um diálogo epistemologicamente cuidadoso entre Freud, Psicologia e neurociência; e propor um modelo integrado para futuras pesquisas e aplicações clínicas. Para isso, foi realizada uma revisão narrativa e integrativa da literatura científica, priorizando estudos experimentais, ensaios clínicos randomizados, meta-análises e revisões relacionadas diretamente ao suspiro ou, quando necessário, à respiração controlada e à regulação psicofisiológica. Foram considerados especialmente estudos sobre fisiologia do suspiro, circuitos respiratórios, cyclic sighing, variabilidade respiratória, breathwork, variabilidade da frequência cardíaca, interocepção, estresse, ansiedade e dor. Como princípio metodológico fundamental, procurou-se distinguir evidência direta sobre o suspiro de evidência indireta proveniente de outras técnicas respiratórias.

O suspiro espontâneo não deve ser compreendido como uma simples “respiração mais profunda”. Ele constitui uma perturbação organizada do padrão respiratório. Li et al. (2016) demonstraram que circuitos específicos no tronco encefálico projetam-se para o complexo pré-Bötzinger, estrutura fundamental para a geração do ritmo respiratório. A manipulação desses circuitos permitiu eliminar suspiros sem abolir a respiração normal, demonstrando que respiração ordinária e suspiro são padrões fisiológicos relacionados, mas não neurobiologicamente idênticos. Essa descoberta constitui uma das bases para compreender o suspiro como comportamento biologicamente especializado. A importância do suspiro, entretanto, não termina no sistema nervoso, uma vez que o pulmão depende da organização adequada do surfactante pulmonar para manter suas propriedades mecânicas. O surfactante reduz a tensão superficial e contribui para a estabilidade alveolar. Pesquisas recentes modificaram significativamente nossa compreensão dessa relação. Novaes-Silva et al. (2025) demonstraram que suspiros espontâneos ou induzidos por ventilação alteram a microestrutura da interface do surfactante, favorecendo o enriquecimento da superfície com lipídios saturados e uma organização mecanicamente mais robusta. Esse resultado é extremamente relevante porque permite compreender o suspiro não apenas como uma inspiração capaz de “abrir alvéolos”, mas como parte de um processo dinâmico de manutenção das propriedades mecânicas pulmonares.

Vlemincx et al. (2013) propuseram o chamado modelo psicofisiológico de reset. Essa proposta parte da observação de que a respiração normal possui variabilidade e de que emoções, estresse e alterações fisiológicas podem modificar essa variabilidade. Nesse contexto, o suspiro poderia contribuir para reorganizar o padrão respiratório e produzir uma sensação subjetiva de alívio. É importante enfatizar que o termo “reset” não significa literalmente reiniciar o cérebro, mas constitui uma metáfora fisiológica para uma reorganização do padrão respiratório. Ainda assim, esse conceito possui grande potencial heurístico para a Psicologia, especialmente quando se considera que o organismo está continuamente submetido a mudanças internas e externas que exigem ajustes dinâmicos. A respiração produz uma corrente contínua de informações ascendentes. Alterações na expansão pulmonar, pressão, composição gasosa e atividade cardiovascular produzem sinais que chegam ao sistema nervoso, participando da construção da experiência corporal. Dessa maneira, pode-se conceber uma sequência em que pulmão, sinais aferentes, tronco encefálico, sistema autonômico, processamento interoceptivo e experiência subjetiva estão funcionalmente relacionados. Essa formulação ajuda a compreender por que uma mudança aparentemente simples na respiração pode alterar a experiência emocional.

A interocepção constitui, nesse contexto, um dos conceitos mais importantes para compreender o fenômeno. O indivíduo não apenas possui um corpo, mas possui também uma representação subjetiva do estado corporal. Quando a respiração muda, modificam-se a expansão torácica, o ritmo respiratório, o esforço respiratório, as sensações cardiovasculares, a percepção de tensão e, dependendo da situação, sensações de sufocamento ou alívio. Esses sinais podem ser interpretados cognitivamente e incorporados à experiência emocional. Portanto, a respiração não modifica apenas o corpo; ela modifica também a informação corporal disponível para o cérebro. Essa perspectiva é particularmente relevante para a compreensão da ansiedade, pois um dos processos envolvidos em muitos estados ansiosos pode ser representado como um ciclo em que uma ameaça percebida produz ativação autonômica, a ativação modifica a respiração, a alteração respiratória gera determinadas sensações corporais, essas sensações são interpretadas pelo indivíduo, a interpretação aumenta a percepção de ameaça e a percepção de ameaça produz nova ativação. O suspiro voluntário pode teoricamente interromper esse circuito em um ponto particularmente acessível, isto é, na relação entre respiração e estado corporal. Isso, entretanto, não significa que o suspiro elimine a causa da ansiedade. Ele pode funcionar, quando eficaz, como uma intervenção de estado, modificando temporariamente o nível de ativação psicofisiológica sem necessariamente alterar os fatores cognitivos, comportamentais, relacionais ou ambientais que mantêm um transtorno psicológico.

A respiração também está intimamente relacionada à regulação cardiovascular. A arritmia sinusal respiratória constitui um exemplo clássico dessa interação, pois durante a inspiração ocorre uma tendência à aceleração relativa da frequência cardíaca, enquanto a expiração está associada a uma desaceleração relativa. Esse fenômeno explica parcialmente o interesse clínico por expirações prolongadas. Entretanto, a popular expressão segundo a qual “o suspiro ativa o nervo vago” constitui uma simplificação excessiva. O fenômeno envolve múltiplos sistemas, incluindo barorreflexo, quimiorreflexo, mecanorreceptores, centros respiratórios, controle cardiovascular e aferências viscerais. Portanto, a explicação adequada deve permanecer sistêmica. Outro elemento frequentemente negligenciado é o dióxido de carbono, ou CO₂. A respiração modifica os níveis de CO₂ e uma respiração excessivamente intensa pode reduzir o CO₂ arterial e provocar sintomas como tontura, parestesias, sensação de irrealidade, desconforto e aumento de sensações corporais. Por esse motivo, técnicas respiratórias não devem ser classificadas simplesmente segundo a ideia de que “mais oxigênio significa mais calma”, porque a fisiologia é consideravelmente mais complexa. O objetivo de uma prática como cyclic sighing não deve ser produzir hiperventilação.

O cyclic sighing investigado por Balban et al. (2023) consiste essencialmente em uma inspiração seguida de uma segunda inspiração suplementar e, posteriormente, uma expiração longa, repetindo-se esse padrão. O estudo investigou cinco minutos diários durante aproximadamente quatro semanas. Os resultados indicaram que as práticas respiratórias melhoraram aspectos do humor e reduziram a frequência respiratória, com resultados particularmente favoráveis ao cyclic sighing. Esse estudo constitui uma importante demonstração experimental de que uma técnica respiratória estruturada pode produzir efeitos psicofisiológicos mensuráveis. Entretanto, não constitui prova de eficácia terapêutica para transtornos mentais. Um aspecto particularmente interessante do estudo de Balban et al. é que os efeitos não se restringiram à redução de estados negativos. O cyclic sighing mostrou resultados favoráveis sobre o humor positivo. Essa questão merece atenção porque reduzir ansiedade não é necessariamente o mesmo que aumentar bem-estar. A distinção pode sugerir que diferentes componentes emocionais respondam a diferentes mecanismos fisiológicos, hipótese que merece estudos específicos.

A literatura mais ampla sobre breathwork também fornece elementos importantes para a compreensão do fenômeno. A meta-análise de Fincham et al. (2023) examinou 12 ensaios randomizados, totalizando 785 participantes para o desfecho principal de estresse. Os autores encontraram um efeito pequeno a moderado do breathwork sobre estresse subjetivo, com tamanho de efeito g = −0,35. Também foram observados efeitos sobre ansiedade e sintomas depressivos. Entretanto, os autores destacaram heterogeneidade e risco de viés moderado em grande parte dos estudos. Dessa forma, existe evidência favorável para respiração controlada em geral, mas isso não demonstra que o suspiro seja superior a todas as outras técnicas. Essa distinção é fundamental para impedir uma generalização indevida de resultados. Da mesma forma, o estudo de Fincham, Strauss e Cavanagh (2023) oferece uma importante advertência metodológica. Foram estudados 400 participantes randomizados para respiração coerente a aproximadamente 5,5 ciclos por minuto ou para uma condição controle ativa a aproximadamente 12 ciclos por minuto. Ambos os grupos praticaram cerca de dez minutos por dia durante quatro semanas. Os resultados não demonstraram superioridade da respiração coerente sobre o controle ativo nos desfechos examinados. Esse resultado sugere que atenção, expectativa, repetição e engajamento podem responder por parcela importante dos efeitos atribuídos genericamente à respiração. Trata-se de uma observação extremamente importante para o desenvolvimento científico do campo.

Consequentemente, suspiro não é sinônimo de breathwork. O suspiro fisiológico espontâneo constitui uma respiração profunda espontânea relacionada à homeostase respiratória e possui evidência forte para sua função fisiológica. O cyclic sighing, por sua vez, envolve dupla inspiração e expiração prolongada, apresentando evidência ainda promissora no que diz respeito à regulação psicofisiológica. A respiração lenta ou coerente caracteriza-se por um ritmo lento e regular, frequentemente relacionado ao acoplamento cardiorrespiratório, apresentando evidência moderada. O box breathing, que utiliza inspiração, retenção, expiração e nova retenção, caracteriza-se pela simetria temporal, mas apresenta evidência limitada quanto à sua eventual superioridade específica. A hiperventilação cíclica envolve inspirações amplas associadas à retenção respiratória e produz alterações ventilatórias e de CO₂, não sendo equivalente ao suspiro. Já o mindfulness respiratório utiliza a atenção dirigida à respiração e possui uma base de evidências própria, que não deve ser confundida com a evidência relativa ao cyclic sighing. Essa diferenciação evidencia por que resultados de uma técnica não devem ser automaticamente transferidos para outra.

A expressão cotidiana “suspiro de alívio” também merece consideração científica. A linguagem comum parece ter identificado intuitivamente um fenômeno que a psicofisiologia começou posteriormente a investigar. O alívio pode ser entendido como uma mudança de estado em que uma situação de ameaça ou ativação é seguida por sua resolução ou pela percepção de resolução, depois ocorre um suspiro e, posteriormente, pode ocorrer redução da tensão percebida. Entretanto, a direção causal pode variar. Em determinadas situações, uma emoção pode produzir um suspiro que posteriormente acompanha o alívio; em outras, um suspiro voluntariamente produzido pode provocar mudanças fisiológicas que contribuem para uma percepção de alívio. Essa bidirecionalidade é uma das características mais interessantes do fenômeno, pois indica que emoção e respiração podem estabelecer relações de influência recíproca, e não necessariamente uma relação causal unidirecional.

A partir dessa perspectiva, é possível estabelecer uma interlocução conceitual entre a teoria freudiana e a psicofisiologia contemporânea, desde que se mantenham rigorosamente diferenciados os níveis epistemológicos envolvidos. Freud não possuía conhecimento sobre o complexo pré-Bötzinger, circuitos respiratórios específicos, variabilidade cardíaca, surfactante pulmonar ou mecanismos contemporâneos de interocepção. Portanto, não seria cientificamente correto afirmar que Freud “descobriu” a função fisiológica do suspiro. O que pode ser recuperado é uma questão conceitual. A teoria econômica freudiana concebe a atividade psíquica em termos de quantidades de excitação e tendências à descarga ou redução da tensão. Essa concepção não equivale aos modelos modernos de homeostase, mas existe uma analogia interessante entre aumento de tensão, acúmulo de ativação, descarga ou reorganização e redução da tensão. O suspiro pode produzir uma experiência subjetiva semelhante a essa sequência. Entretanto, deve-se manter uma distinção fundamental: analogia conceitual não é identidade neurobiológica.

A discussão torna-se ainda mais delicada quando se considera a pulsão de morte. A pulsão de morte, em Freud, introduz uma formulação muito mais radical do princípio de redução da tensão. Entretanto, seria cientificamente inadequado afirmar que “o suspiro é uma manifestação da pulsão de morte”, uma vez que não existe evidência empírica que sustente essa proposição. Pode-se, no máximo, propor uma discussão teórica segundo a qual a tendência do organismo a reorganizar estados de tensão pode ser comparada, em nível metapsicológico, às formulações freudianas sobre redução de excitação. Entretanto, tratam-se de modelos epistemologicamente diferentes. Essa diferença deve ser explicitada para evitar pseudointegrações entre Psicanálise e Neurociência. Uma formulação mais interessante consiste em afirmar que Freud ofereceu uma linguagem metapsicológica para pensar tensão e descarga, enquanto a neurociência contemporânea oferece mecanismos para investigar alterações concretas da atividade corporal e neural. As duas perspectivas podem dialogar, mas não precisam ser confundidas.

O suspiro pode então ser compreendido como uma interface entre corpo e experiência. Em nível metapsicológico, podemos considerar conceitos como tensão, conflito, desejo e alívio; em nível psicológico, emoção, atenção, interpretação e interocepção; e em nível fisiológico, respiração, CO₂, mecânica pulmonar, sistema cardiovascular e circuitos do tronco encefálico. A experiência humana emerge da interação entre esses níveis. Essa concepção permite propor um modelo biopsicofisiológico integrativo no qual um estressor produz determinada avaliação cognitiva, que pode desencadear ativação emocional e modificação respiratória; a modificação respiratória altera a informação interoceptiva, podendo ocorrer um suspiro, que modifica a mecânica respiratória e a organização cardiorrespiratória, produzindo alteração da experiência corporal, seguida de uma nova avaliação que pode resultar em alívio, regulação ou continuidade da ativação. Esse modelo deve ser entendido como um modelo conceitual e não como um mecanismo causal definitivamente comprovado.

Outro componente potencialmente relevante é a aprendizagem. Imagine-se uma pessoa que pratique diariamente cinco minutos de cyclic sighing e perceba repetidamente que consegue modificar seu estado corporal. Essa experiência pode produzir aprendizagem. Em uma situação posterior de estresse, ela pode recordar que dispõe de uma estratégia que pode utilizar. Surge, então, um segundo circuito potencial, no qual a prática gera uma experiência de controle, essa experiência aumenta a autoeficácia, a autoeficácia favorece o uso futuro da técnica e seu uso pode contribuir para a regulação. Nesse sentido, a pessoa não aprende apenas a respirar de determinada maneira; aprende também que pode intervir sobre seu próprio estado. Essa experiência aproxima a técnica da teoria de Bandura sobre autoeficácia. A estratégia respiratória poderia, portanto, produzir simultaneamente um efeito fisiológico, decorrente da modificação do estado corporal, e um efeito psicológico, relacionado ao aumento da percepção de controle.

Essa distinção permite compreender o cyclic sighing principalmente como uma intervenção de estado e não de traço. A técnica pode ser útil para modificar o estado de ativação de uma pessoa, mas isso não significa necessariamente que modifique traços de personalidade, tampouco significa que trate a estrutura psicopatológica subjacente. Por essa razão, a melhor classificação atual seria a de uma estratégia complementar de autorregulação psicofisiológica. Essa classificação evita tanto a subestimação do fenômeno quanto sua transformação em uma intervenção terapêutica universal. A técnica pode ser integrada à psicoterapia de diferentes maneiras. Na Terapia Cognitivo-Comportamental, pode ser utilizada como estratégia de regulação fisiológica antes de exposição ou reestruturação cognitiva. Na Terapia de Sessão Única, pode funcionar como ferramenta de aquisição imediata de uma habilidade. Em uma psicoterapia baseada em avaliação, pode ser empregada como microintervenção cujo efeito pode ser mensurado antes e depois. Na Psicologia da Saúde, pode constituir recurso complementar para procedimentos médicos e manejo do estresse. Na Neuropsicologia, pode ser utilizada como estratégia auxiliar para manejo do estado de ativação, sem que seja confundida com uma intervenção destinada a aumentar artificialmente o desempenho cognitivo.

Como proposta clínica exploratória, e não como protocolo terapêutico validado, pode-se imaginar um microprotocolo em que inicialmente sejam avaliados ansiedade, tensão, ativação corporal e sensação de controle em escalas subjetivas de zero a dez. Em seguida, seria realizada psicoeducação sobre a relação entre respiração, corpo e ativação. Posteriormente, poderiam ser realizados ciclos confortáveis de inspiração, segunda inspiração complementar e expiração prolongada, seguidos de observação da experiência corporal por meio de perguntas como “o que mudou no seu corpo?”. Finalmente, as medidas subjetivas poderiam ser reaplicadas e os resultados comparados, permitindo identificar se ocorreu mudança relevante. A etapa seguinte consistiria em identificar situações reais nas quais o recurso poderia ser utilizado. Essa proposta deve ser compreendida como uma hipótese de aplicação clínica e não como um procedimento empiricamente validado.

O princípio da mensuração é particularmente importante para uma Psicologia baseada em avaliação. Em vez de simplesmente afirmar que “a técnica funciona”, é cientificamente mais produtivo investigar qual foi a mudança observada em determinado indivíduo. Isso transforma uma técnica popular em uma intervenção potencialmente mensurável. Podem ser utilizados indicadores subjetivos, frequência respiratória, frequência cardíaca, variabilidade da frequência cardíaca e, eventualmente, CO₂ expirado. A intervenção deixa, dessa maneira, de ser apenas uma recomendação e passa a constituir uma hipótese testável. Essa abordagem é especialmente compatível com um modelo de trabalho baseado em avaliação, formulação, intervenção e monitoramento, no qual se procura avaliar antes da intervenção, intervir de forma orientada pela hipótese formulada, mensurar as alterações ocorridas e reavaliar os resultados ao longo do tempo. Esse procedimento impede que uma técnica seja utilizada simplesmente porque “parece funcionar”.

A Terapia de Sessão Única constitui um contexto particularmente interessante para essa aplicação. Uma única sessão precisa produzir compreensão, recurso, ação e autonomia. O cyclic sighing pode preencher parte dessa função, não porque seja capaz de resolver um problema clínico em cinco minutos, mas porque pode fornecer ao paciente uma ferramenta imediatamente disponível de autorregulação psicofisiológica. A intervenção pode, assim, ser entendida como um recurso de autonomia e não como substituto de uma psicoterapia quando esta for clinicamente indicada. A questão central passa a ser oferecer ao indivíduo uma estratégia que ele possa compreender, experimentar e monitorar, integrando-a ao conjunto de recursos terapêuticos disponíveis.

Outra possibilidade de investigação refere-se à relação entre suspiro e dor. Hanley et al. (2025) investigaram cyclic sighing em pacientes que aguardavam atendimento em uma clínica ortopédica. O estudo piloto encontrou redução da intensidade e do caráter desagradável da dor após a intervenção, embora não tenham sido observadas diferenças entre grupos nos sintomas de ansiedade ou depressão. Esse resultado é preliminar, mas amplia o campo de investigação e sugere que o fenômeno merece ser estudado não apenas em relação ao estresse, mas também em situações envolvendo dor, procedimentos médicos e reabilitação. Mais uma vez, entretanto, o caráter piloto desses resultados exige cautela e impede conclusões terapêuticas amplas.

As evidências atuais apresentam limitações metodológicas importantes. Existem amostras pequenas, especialmente nos estudos especificamente direcionados ao cyclic sighing, e predomina a participação de adultos saudáveis, o que limita a extrapolação para populações clínicas. O cegamento também é difícil, uma vez que o participante sabe qual técnica está praticando. Além disso, a expectativa pode produzir efeitos independentes da alteração fisiológica propriamente dita. Existe ainda grande heterogeneidade, porque o termo breathwork reúne técnicas fisiologicamente distintas. Muitos estudos utilizam desfechos predominantemente subjetivos, enquanto os estudos de seguimento ainda são relativamente limitados. Essas limitações tornam necessário evitar afirmações categóricas sobre eficácia e estimulam a realização de ensaios clínicos mais rigorosos, com controles ativos, medidas fisiológicas objetivas, amostras clínicas e acompanhamento longitudinal.

A partir das evidências disponíveis, algumas afirmações podem ser sustentadas com diferentes graus de confiança. Existe evidência forte de que os suspiros fazem parte da fisiologia respiratória e de que existem circuitos neurais específicos relacionados à sua geração. Também há evidência forte e crescente de que os suspiros participam da mecânica pulmonar. Existe evidência moderada de que a respiração controlada pode reduzir o estresse, enquanto a evidência sobre cyclic sighing e melhora do humor pode ser considerada promissora. Entretanto, a evidência especificamente relacionada à redução clinicamente significativa de ansiedade pelo cyclic sighing ainda é insuficiente, e não está demonstrado que a técnica trate transtornos de ansiedade ou depressão. Da mesma maneira, os efeitos sobre dor são preliminares e não existe demonstração de que o cyclic sighing seja superior a todas as outras técnicas respiratórias.

Essas lacunas apontam para uma agenda de pesquisa importante. A próxima geração de estudos deveria abandonar a pergunta genérica “respiração funciona?” e investigar qual padrão respiratório produz qual efeito, em qual pessoa, por qual mecanismo e durante quanto tempo. Isso exige desenhos fatoriais capazes de estudar separadamente ou em conjunto elementos como dupla inspiração, expiração prolongada, frequência respiratória e expectativa, além da atenção interoceptiva. Somente desenhos dessa natureza poderão identificar quais componentes realmente produzem determinado efeito. Pesquisas futuras também devem investigar moderadores e mediadores. Entre os possíveis moderadores encontram-se ansiedade basal, sensibilidade à ansiedade, interocepção, idade, sexo, experiência prévia com meditação e padrão respiratório basal. Entre os possíveis mediadores encontram-se frequência respiratória, CO₂, variabilidade da frequência cardíaca, pressão arterial, percepção de controle, mudança na atenção e expectativa. O objetivo seria responder não apenas “se funciona”, mas fundamentalmente “para quem funciona?” e “como funciona?”.

Uma das possibilidades teoricamente mais interessantes consiste em compreender o suspiro como uma intervenção sobre um processo comum de hiperativação psicofisiológica. Em vez de classificá-lo simplesmente como intervenção para ansiedade ou depressão, poderíamos investigá-lo como estratégia para modulação de ativação. Esse enquadramento é compatível com modelos transdiagnósticos contemporâneos e permite deslocar a pergunta de “qual diagnóstico responde ao suspiro?” para “qual dimensão psicofisiológica pode ser modificada por esse padrão respiratório?”. Essa mudança conceitual poderá ser especialmente importante para a Psicologia baseada em evidências, pois permite investigar processos e mecanismos transversais em vez de limitar a pesquisa a categorias diagnósticas.

O suspiro fisiológico é, portanto, um fenômeno muito mais complexo do que sua representação cotidiana sugere. Ele não é simplesmente uma manifestação de tristeza, não é simplesmente uma respiração profunda e não é simplesmente uma ativação do nervo vago. Sobretudo, não pode ser apresentado cientificamente como uma cura rápida para a ansiedade. O suspiro constitui uma função respiratória biologicamente organizada, cuja expressão envolve mecanismos pulmonares e circuitos específicos do sistema nervoso. Quando produzido voluntariamente de forma estruturada, particularmente como cyclic sighing, ele pode também funcionar como uma ferramenta de regulação psicofisiológica. A evidência experimental disponível é promissora, mas ainda está em construção. O aspecto mais fascinante talvez seja justamente sua posição intermediária: o suspiro começa como fenômeno corporal, é processado pelo cérebro, é percebido pelo indivíduo, pode adquirir significado emocional e, quando voluntariamente produzido, pode tornar-se uma ação deliberada sobre o próprio estado corporal. Nesse sentido, ele constitui uma espécie de ponte operacional entre fisiologia e experiência subjetiva.

A hipótese mais interessante, portanto, não é que o corpo seja separado da mente e que uma técnica respiratória faça a mente obedecer ao corpo. É que mente e corpo constituem sistemas reciprocamente regulados, e a respiração é um dos canais mais acessíveis pelos quais essa regulação pode ser modulada conscientemente. Essa conclusão permite um diálogo produtivo entre Psicologia, Neuropsicologia, fisiologia e neurociência e permite também uma leitura mais cuidadosa de Freud. A noção freudiana de tensão e descarga pode ser retomada como objeto histórico e conceitual, mas não deve ser apresentada como equivalente aos mecanismos neurofisiológicos atualmente conhecidos. O futuro provavelmente não estará em escolher entre Psicanálise ou Neurociência, mente ou corpo, psicológico ou fisiológico. Estará em compreender em quais níveis cada teoria é capaz de explicar o fenômeno e onde seus conceitos deixam de ser equivalentes. É precisamente nessa fronteira que o suspiro fisiológico se torna cientificamente interessante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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HANLEY, A. W. et al. Cyclic sighing in the clinic waiting room may decrease pain: results from a pilot randomized controlled trial. Journal of Behavioral Medicine, v. 48, n. 2, p. 385–393, 2025. DOI: 10.1007/s10865-024-00548-5.

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VLEMINCX, E. et al. Respiratory variability and sighing: a psychophysiological reset model. Biological Psychology, v. 93, n. 1, p. 24–32, 2013. DOI: 10.1016/j.biopsycho.2012.12.001.

Ricardo Santana, Psicólogo, Neuropsicólogo, CRP15 0180, WhatsApp: (82)99988-3001, Maceió/AL


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